Enquanto o Oriente Médio vive um frágil cessar-fogo no conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel, as tensões se concentram na disputa sobre o controle do Estreito de Ormuz, onde se afunila a saída marítima do Golfo Pérsico para as demais rotas oceânicas. Com objetivos opostos, iranianos e norte-americanos, em uma situação invulgar, anunciaram nos últimos dias o bloqueio do ponto por onde é escoado 20% do petróleo consumido no mundo. A legislação marítima internacional, à luz da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, é clara: estreitos como o de Ormuz, pela importância que têm para a navegação global, não podem ser interrompidos por nenhum país.
Cabe lembrar que o pedágio pretendido pelo Irã para a passagem de navios também viola o direito marítimo internacional
As perdas econômicas pela interrupção do comércio, e não apenas de petróleo e gás, são significativas. Os fertilizantes, essenciais para a produção de alimentos, sofreram elevação de preços. O Brasil importa cerca de 85% do que utiliza. Os danos às exportações brasileiras e gaúchas para o Oriente Médio já foram sentidos em março e devem continuar a ser percebidos neste mês. Convém contar com a possibilidade de negociações que possam levar à normalização do trânsito no local, enquanto se desenrolam outras tratativas relacionadas às causas do recente confronto armado. França e Reino Unido pretendem abrir diálogo para a reabertura pacífica do estreito.
O Irã já havia trancado a passagem de navios durante os dias de guerra e estaria exigindo um pedágio para liberar embarcações. A destruição de infraestrutura energética na região durante o conflito e o bloqueio do Estreio de Ormuz levaram à disparada dos preços do petróleo. O barril, negociado abaixo dos US$ 70 ainda em fevereiro, roçou US$ 120 e, nos últimos dias, com grande volatilidade, gira em torno de US$ 100. Cabe lembrar que o pedágio pretendido pelo Irã também viola o direito marítimo internacional. Não pode ser aceito. Mas a ideia, apesar de ilegal, chegou a contar com a simpatia do presidente dos EUA. Em uma de suas declarações disparatadas, Donald Trump cogitou ter uma espécie de cooperação com o Irã para receber pagamento pelo trânsito de navios no estreito.
Conforme o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), as exportações do Brasil para o Oriente Médio foram de US$ 880 milhões em março, ante US$ 1,2 bilhão no mesmo mês de 2025, queda de 27%. O RS foi proporcionalmente mais atingido. A redução foi de US$ 176 milhões para US$ 81 milhões. No ano passado, o Estado embarcou US$ 1,3 bilhão para a região. Grande parte tem como destino portos do Golfo Pérsico.
Neste momento, o Irã busca o bloqueio para forçar uma alta do petróleo e enfraquecer a disposição norte-americana de continuar o cerco ao regime opressor dos aiatolás, e os EUA pretendem estrangular economicamente os iranianos com a interrupção do comércio marítimo do país persa. Em meio ao impasse, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou que, devido à guerra, reduziu em 0,2 ponto percentual a previsão de crescimento do PIB global em 2025, para 3,1%. O Brasil, por ser exportador de petróleo, teve as projeções elevadas em 0,3 ponto, para 1,9%. Não há o que celebrar diante dos efeitos colaterais inflacionários, materializados no aumento do custo de vida.



