Com bandeira de Malta, o navio PGC Taormina partiu do Porto de Rio Grande na terça-feira, chegou a Porto Alegre na quarta e em seguida descarregou a carga de insumos petroquímicos no Terminal Santa Clara, em Triunfo. A viagem, descrita dessa forma, poderia passar por um acontecimento corriqueiro. Mas, ao contrário, pode ser um marco da retomada do modal hidroviário no Rio Grande do Sul. Foi a primeira navegação noturna de uma embarcação de grande porte pela Lagoa dos Patos em 42 anos. Isso mesmo. Em mais de quatro décadas. Se operações do gênero tornarem-se habituais, o Estado terá ganhos econômicos.
O potencial do transporte por hidrovias no Estado é notório, mas ao longo das últimas décadas o uso dessa opção definhava pela falta de manutenção adequada
O potencial do transporte por hidrovias no Rio Grande do Sul é notório, mas ao longo das últimas décadas o uso dessa opção definhava pela falta de manutenção adequada, como dragagens constantes, além da má conservação da sinalização. As vias navegáveis encolheram com o passar do tempo. A situação atingiu o limite com a enchente de 2024. Grandes volumes de sedimentos foram carreados pela força da água e acabaram depositados no fundo dos canais, limitando ou impedindo a navegação. Vários casos de encalhes foram registrados e navios deixaram de fazer o percurso entre Rio Grande e a Capital.
A gravidade do quadro fez o governo gaúcho estruturar um programa de recuperação das hidrovias, por meio do Plano Rio Grande. Os recursos vieram do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), abastecido com as parcelas da dívida do Estado com a União que deixaram temporariamente de ser pagas. A dragagem dos canais e a instalação de nova sinalização, custeada pela Portos RS, permitiram a volta da navegação noturna.
O fato merece reconhecimento. Ao mesmo tempo, é cabível lamentar que por mais de 40 anos essa deixou de ser uma possibilidade devido à desatenção com as hidrovias por sucessivos governos estaduais, inclusive o atual. Foi uma situação revertida apenas em virtude de um evento climático excepcional e graças à existência de recursos extraordinários. No final de 2024, o governo gaúcho prometeu direcionar R$ 731,3 milhões para dragagens.
A navegação noturna torna as viagens mais rápidas. Não é mais necessário esperar a luz do dia para iniciar o percurso. Navio parado também tem custo. Fazer o trajeto à noite, com a garantia de segurança, significa logística facilitada. Os custos da operação caem, o que se reflete em competitividade para as empresas que dependem do modal ou o utilizam eventualmente para o transporte de mercadorias como celulose, grãos, fertilizantes, combustíveis e produtos químicos. Abre-se a possibilidade de a demanda crescer, o que também repercute em menos caminhões nas rodovias abarrotadas do Estado.
A recuperação da hidrovia entre Rio Grande e a Capital permitiu ainda, no início do ano, a retomada da navegação de longo curso até Porto Alegre. São viagens entre portos de diferentes países. A agilidade operacional, da mesma forma, representa vantagens logísticas e de competitividade. O modal é estratégico para o Rio Grande do Sul. Tão importante quanto recuperar a navegabilidade é garantir a manutenção ao longo dos próximos anos, evitando um novo quadro de desleixo. _



