As primeiras repercussões do conflito no Oriente Médio na inflação brasileira serão conhecidas na sexta-feira, quando o IBGE divulga o IPCA de março. Além do impacto direto nos combustíveis, há particular expectativa sobre a variação dos preços dos alimentos, um dos componentes mais importantes do indicador. Caso a guerra se prolongue e danos severos na infraestrutura petrolífera dos países do Golfo Pérsico se confirmem, é plausível que o mundo passe por um novo ciclo de encarecimento da comida, com o preocupante aumento da insegurança alimentar. Poderia ser um cenário análogo ao de 2022, desencadeado pela invasão da Rússia à Ucrânia, quando o grupo alimentação e bebidas do IPCA subiu 11,6%, o dobro do índice geral. Os mais pobres, por comprometerem maior fatia da renda com necessidades básicas como a nutrição, são os mais afetados.
Inflação alta, ainda mais de alimentos, corrói de forma implacável o capital político de governantes em busca de recondução
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já mostrou que, em nível global, os sinais iniciais são inquietantes. A cesta de produtos acompanhados pela entidade, que inclui cereais, carnes, açúcar, óleos vegetais e lácteos, subiu em média 2,4% em março em relação a fevereiro. Combustível mais caro eleva o custo do transporte. Produtos oriundos do petróleo como embalagens plásticas são pressionados, assim como fertilizantes. Óleos vegetais, utilizados para alternativas como o biodiesel, também se valorizam.
O desafio será maior caso se confirme o prognóstico soturno do presidente da Agência Internacional de Energia (AIE), Faith Birol. Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, avaliou que o choque atual do petróleo é mais grave do que as crises de 1973, 1979 e 2022 juntas. Está em curso uma interrupção no fluxo de fornecimento de energia inédita, avalia Birol. Ele comunga da visão de que países em desenvolvimento sofrerão mais, também pelo impacto nos alimentos.
Governos ao redor do mundo correm com medidas para mitigar a contaminação inflacionária, e no Brasil não é diferente. O risco, aqui, é que a aproximação de mais uma eleição, a exemplo de 2022, sirva de pretexto para iniciativas que custem muito acima do razoável. Com popularidade cambaleante, o governo Luiz Inácio Lula da Silva planeja uma série de bondades, assim como fez o então presidente Jair Bolsonaro, mal avaliado nas pesquisas. Quatro anos atrás, com a ajuda do Congresso, Bolsonaro conseguiu a redução, à revelia dos Estados, do ICMS sobre os combustíveis, reajustou o então Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 e destinou farta ajuda financeira a categorias como taxistas e caminhoneiros. Lula, agora, distribui subsídios ao diesel e ao gás para famílias carentes e prepara às pressas um programa de renegociação de dívidas para aliviar o aperto financeiro de cidadãos encalacrados.
Inflação alta, ainda mais de alimentos, corrói de forma implacável o capital político de governantes em busca de recondução. O desespero eleitoral é mau conselheiro. Cria o risco de medidas emergenciais se prolongarem ou serem custosas demais, contribuindo para a deterioração fiscal e obstaculizando ainda mais a redução da Selic pelo Banco Central – já dificultada pela guerra. E assim o círculo vicioso de rombo nas contas do país e juro proibitivo se realimenta.

