Há razões para lamentar e para considerar satisfatória a safra de soja que o Rio Grande do Sul vai colher neste ano. O desapontamento vem da expectativa que existia de produzir um volume recorde, em meio a um período de dificuldades financeiras no campo. Pelo lado positivo, cumpre sublinhar que as 19 milhões de toneladas agora esperadas representam o segundo melhor resultado da série histórica da cultura.
As projeções atualizadas do ciclo 2025/2026 foram apresentadas nesta terça-feira (10) pela Emater na Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque. Como se desconfiava, o calor excessivo e a chuva escassa em algumas regiões afetaram o desempenho esperado. Inicialmente, com prognósticos climáticos favoráveis, calculava-se até 21,4 milhões de toneladas do grão que puxa a produção de riquezas da agricultura do RS. Ainda assim, 19 milhões de toneladas significam um crescimento de 44% sobre a safra 2024/2025, quando outra estiagem severa espalhou perdas pelo Estado.
Para uma parcela representativa dos produtores, o resultado será um alento insuficiente
Convém lembrar também que a produção deste ano, significativa em termos históricos, foi obtida apesar de um recuo da área cultivada (-1,7%) e do menor uso de fertilizantes devido à descapitalização e à dificuldade de acesso ao crédito. A nota preocupante vem dos preços, em um momento de necessidade de renda para pagar compromissos. Na semana passada, conforme a Emater, a cotação média da saca de 60 quilos no Estado era de R$ 117, bem abaixo dos patamares próximos de R$ 200 quatro anos atrás.
A surpresa positiva veio do milho. O volume previsto é de 5,9 milhões de toneladas, 3% acima da primeira estimativa. Trata-se de um grão de grande importância estratégica por ser o principal insumo de cadeias relevantes de proteína animal, como as de aves e de suínos. Ao todo, a safra de verão – incluindo ainda arroz e feijão – deve chegar a 32,8 milhões de toneladas. Cerca de 7% aquém da previsão inicial, mas 24% acima do resultado do ano anterior. Mesmo com as lavouras se desenvolvendo abaixo do potencial, o volume colhido tende a dar um impulso considerável para o PIB do RS em 2026.
Para uma parcela representativa dos produtores, a safra em curso é um alento insuficiente. O endividamento elevado, fruto de uma série de colheitas frustradas nesta década por estiagens, só será resolvido com uma renegociação estrutural dos passivos.
Está programada para hoje uma reunião do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, com o governador Eduardo Leite e o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes. Na pauta, o projeto de lei que permite o uso do Fundo Social do Pré-Sal no alongamento das dívidas de produtores afetados por extremos climáticos. A entidade assegura que a fórmula proposta, já aprovada na Câmara dos Deputados, e que agora aguarda a análise do Senado, não tem impacto fiscal. Também prevê a devolução do dinheiro pelos produtores.
Espera-se que as negociações avancem, trazendo novas esperanças para milhares de agricultores gaúchos que, se não bastassem os problemas que já vinham enfrentando, agora temem a escassez de óleo diesel em pleno período da colheita. As 32,8 milhões de toneladas de grãos previstas precisam ser tiradas das lavouras.




