A lista de adversidades enfrentadas pelos agricultores gaúchos, já extensa, ganha um novo item. Como reflexo da disparada do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio, avolumam-se relatos de abastecimento truncado de óleo diesel no Estado. Trata-se de um quadro inquietante, com a colheita do milho e do arroz em andamento e às vésperas de o mesmo trabalho ser iniciado na soja. A situação requer atenção do governo federal, que por meio da Petrobras controla grande parte da produção e da distribuição do combustível no país. Também exige que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) monitore a situação de perto.
A ANP deve atuar para verificar anormalidades no mercado e fiscalizar práticas desleais
Os produtores gaúchos sofrem com o endividamento após sucessivas safras frustradas por estiagens, preços dos grãos longe dos melhores momentos, juro nas alturas, custos altos e mais uma colheita ameaçada pela chuva irregular. Seria trágico se a essas vicissitudes se somasse a falta de diesel para as colheitadeiras, com o risco de perda da produção nas lavouras.
A Federação da Agricultura do Estado (Farsul) informou no sábado ter sido procurada por um grande número de produtores preocupados com a descontinuidade da entrega de combustíveis pelos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs), empresas que atendem grandes consumidores finais. Segundo essas companhias, o problema estaria nas refinarias, que teriam interrompido a distribuição, sem prazo para normalização. A entidade comunicou o fato ao governador Eduardo Leite, para que intercedesse junto ao Ministério de Minas e Energia em busca de uma solução.
A colunista Giane Guerra informou na semana passada que a Petrobras começou a praticar a venda em cotas limitadas após importadoras terem suspendido aquisições do Exterior devido à disparada dos preços internacionais do diesel. Refinarias têm sido atingidas no conflito no Oriente Médio. Mas o grande gargalo é o fechamento pelo Irã do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo. Sem perspectiva de desescalada na guerra, a tensão econômica cresce e as cotações sobem.
A ANP deve atuar para verificar anormalidades no mercado e fiscalizar práticas desleais. No domingo, a agência reguladora disse ter contatado os principais fornecedores do Estado. Concluiu que o RS teria estoques suficientes para um abastecimento regular. Produção e entrega estariam normais na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas. Assegurou ainda que não detectou razões que explicassem eventual interrupção de fornecimento. São informações desencontradas em relação aos relatos que chegaram à Farsul. O monitoramento deve prosseguir.
Estima-se que entre 20% e 30% do diesel consumido no país seja adquirido no Exterior. A própria Petrobras importa. Mas são as empresas privadas as principais compradoras de outros países. Na sexta-feira, conforme a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), os preços da Petrobras estavam 64% abaixo da paridade internacional. A estatal hesita em repassar imediatamente a volatilidade. É natural que essa grande diferença de valores iniba importadores. Petrobras e governo, no entanto, devem saber que não atender à demanda é pior do que elevar preços, ainda que a inflação acabe impactada.


