O presidente dos EUA, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, fizeram uma aposta altíssima ao deflagrar o ataque coordenado ao Irã, no sábado. Os riscos domésticos para os dois líderes, para o Oriente Médio e para a economia global se tornaram ainda mais claros ao fim do terceiro dia da ofensiva determinada a eliminar o programa nuclear do regime dos aiatolás e a derrubar a teocracia há 47 anos no poder. O conflito se espalhou para outros países da região, e cresceu a percepção de que pode se prolongar. A abertura dos mercados financeiros nesta segunda-feira fortaleceu as preocupações, em especial com o salto do petróleo.
O Brasil não passa imune ao risco inflacionário influenciado pelo petróleo
Após ser bombardeado, o Irã disparou mísseis contra vizinhos, além de Israel. Mirou bases norte-americanas em países como Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Jordânia. Uma unidade do Reino Unido no Chipre foi alvejada por um drone, o que fez a Grécia anunciar ações de defesa à ilha. Nações da Europa avisaram estar prontas para proteger o continente. Em outra frente, o grupo extremista Hezbollah, baseado no Líbano e aliado de Teerã, lançou mísseis contra Israel, que respondeu com ataques aéreos.
No tiroteio retórico, o Irã garantiu estar preparado para um conflito demorado. Trump não descartou enviar tropas ao território do país persa, diante do ceticismo de que apenas bombardeios poderiam levar o regime ao ocaso, apesar da morte do líder supremo Ali Khamenei e de parte da cúpula militar do Irã. A escalada das hostilidades dificulta projetar as próximas semanas, mas os sinais são de acirramento dos ânimos e disposição para ir às últimas consequências. Agora, para EUA e Israel, não há saída a não ser ir até o fim na operação militar e forçar a queda do regime que oprime o próprio povo e promove o terrorismo na região. As manifestações populares gigantescas na virada do ano atestaram que a população iraniana não suporta mais o jugo dos aiatolás. Só não há novos protestos massivos devido à ameaça clara do governo de que seriam novamente esmagados de forma impiedosa.
A cotação do petróleo brent chegou a US$ 70 na semana passada, mas com a eclosão do conflito encostou nos US$ 80. Há o receio de que a conflagração reduza a oferta. O Irã anunciou que fecharia o Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento da commodity do Oriente Médio. Assim, o mundo tem à frente a ameaça de uma forte pressão inflacionária. Mas não pode ser descartado que, nessa hipótese, Trump tire o pé do conflito, com receio de que combustíveis mais caros piorem a sua popularidade em um ano de eleições decisivas para o Congresso.
O Brasil não passa imune ao risco inflacionário influenciado pelo petróleo. Por aqui, outros reflexos nesta segunda-feira foram as altas do dólar e dos juros futuros, a pouco mais de duas semanas da reunião do Banco Central que deve começar a cortar a taxa Selic. Há receio ainda de um possível aumento significativo dos fretes marítimos e dos fertilizantes, pressionando custos de lavouras e elevando preços de alimentos. É um cenário parecido com o do início da guerra da Ucrânia, em 2022, que acabou levando o governo brasileiro de então a medidas populistas e irresponsáveis às vésperas da eleição presidencial.

