Os números do PIB brasileiro do quarto trimestre divulgados nesta terça-feira (3) pelo IBGE completaram o panorama da economia brasileira no ano passado. Ainda que em todo o exercício o crescimento tenha sido de 2,3%, confirmou-se uma brutal desaceleração da atividade na segunda metade de 2025, atingida em cheio pela Selic no patamar exorbitante de 15% ao ano. Entre outubro e dezembro, o avanço foi de microscópico 0,1% sobre o trimestre imediatamente anterior. O resultado de julho a setembro, por seu turno, teve a variação mínima de 0,1% revisada para 0%.
A principal ameaça no radar, a se agravar em caso de prolongamento da guerra, é a pressão inflacionária
Além do estado letárgico da economia na virada do calendário, o país ingressa em 2026 sob o risco de ser atingido pelos estilhaços da guerra no Oriente Médio. Os receios advêm em especial dos efeitos inflacionários de um petróleo mais caro. O barril da commodity do tipo brent, referência para o Brasil, chegou a ser cotado a pouco mais de US$ 60 no início do ano. Ontem, roçou nos US$ 85. Como o Brasil é hoje exportador líquido de petróleo, no entanto, há a chance de o real acabar por se valorizar e mitigar esses malefícios.
A principal ameaça no radar, a se agravar em caso de prolongamento no conflito, é a pressão inflacionária prejudicar o tão aguardado ciclo de corte da Selic. Até aqui, esperava-se que no próximo encontro do Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC), daqui a duas semanas, o colegiado optaria por uma redução de 0,5 ponto percentual no juro básico. Mas as colunas de fumaça das bombas tisnam o horizonte. Põem em dúvida o começo do próprio ciclo ou ao menos a magnitude do corte. Criam ainda a possibilidade de a rodada de afrouxamento monetário ser encerrada mais cedo e não chegar a 12% no final de 2026, o que seria hoje o consenso do mercado.
Seria um cenário consternador para a economia brasileira, por inibir os investimentos produtivos e continuar a elevar o grau de endividamento das famílias e das empresas, transbordando para uma inadimplência até acima dos níveis recordes atuais. O eventual recrudescimento da inflação por efeitos da guerra, portanto, tem o potencial de elevar a sensação de mal-estar econômico, a despeito do desemprego nas mínimas históricas e da renda em alta. Daí derivam outros perigos.
O nível vigente da Selic é filho também da pouca afeição do governo Lula com o equilíbrio das contas, contaminando as expectativas de inflação. Por ações e sinalizações de impulso fiscal, o BC foi obrigado a apertar ainda mais o torniquete. Escolhas erradas em busca de popularidade imediata podem se repetir na antessala de mais uma eleição.
Cabe outra vez rememorar que, em 2022, com a invasão russa na Ucrânia, os reflexos inflacionários impeliram o governo Jair Bolsonaro e o Congresso, a poucos meses do pleito presidencial, a irresponsabilidades como a chamada PEC Kamikaze, que arrombou o teto de gastos e abriu espaço para R$ 41 bilhões em bondades, e a limitação na marra do ICMS, prejudicando os Estados, para reduzir os preços dos combustíveis. Não é de se duvidar que a gestão Lula, diante de uma reeleição ameaçada em um possível cenário de economia em marcha lenta e inflação acelerada, lance mão de desatinos que acabem por aprofundar o problema fiscal e produzir juros altos por mais tempo.




