O turbilhão de revelações extraídas de um dos celulares apreendidos de Daniel Vorcaro sugou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para o centro do escândalo do Banco Master. Não há mais como minimizar os indícios de proximidade nebulosa entre o banqueiro preso pelo envolvimento em uma série de crimes e Moraes, um dos mais proeminentes membros da Corte constitucional. O ministro ainda precisa dar explicações claras e críveis sobre o diálogo que teria mantido da manhã à noite do dia 17 de novembro do ano passado, encerrado minutos antes de Vorcaro ser detido pela Polícia Federal (PF) por fraudes bancárias. Em nota divulgada na sexta-feira à noite, Moraes negou que as mensagens enviadas por Vorcaro seriam para ele. Isso reforça a obrigação do caso ser investigado.
As informações sobre as conversas publicadas pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, são seríssimas. Geram suspeitas que jamais poderiam pairar sobre alguém na posição de Moraes. Num dos pontos mais graves, que aparenta ser referente ao inquérito contra ele na Justiça Federal, Vorcaro cita a possibilidade de vazamento dessa informação e diz que “pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Pelo contexto, uma possível intervenção do ministro em algo. No trecho mais inquietante, ao relatar os esforços para vender às pressas o Master, liquidado no dia seguinte pelo Banco Central (BC), pergunta ao contato identificado com o número do telefone de Moraes: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Defender instituições como STF não é sinônimo de ignorar transgressões de quem ocupa seus mais altos postos
As mensagens a Vorcaro eram redigidas no bloco de notas do dispositivo. Em seguida eram feitos prints e só depois enviados como imagens de visualização única. Assim, o conteúdo das respostas segue uma incógnita. Mas, como era usada uma técnica para apagá-las, é lícito supor que não eram republicanas. Assim sendo, se impõe ser esclarecido: o que deveria ser bloqueado pelo ministro Moraes? O que Vorcaro quis dizer com “entrar no circuito do processo”?
Após a eclosão do escândalo do Master, foi descoberto contrato que previa o pagamento de R$ 129 milhões durante três anos ao escritório de advocacia dos filhos e da esposa de Moraes, Viviane Barci. Os serviços que prestaria ao banco pela quantia incomum até para as mais prestigiadas bancas do país nunca foram bem entendidos. Em seguida, soube-se que Moraes teve encontros com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para interceder pelo Master, quando a venda da instituição para o BRB, banco estatal do Distrito Federal, ainda dependia da chancela da autoridade monetária. O aval foi negado.
Todas essas informações dão margem a desconfianças de que Moraes atuou nos bastidores por interesses privados. Poderia se configurar, em tese, em advocacia administrativa. Outras hipóteses de condutas que vão bem além da imoralidade tornam-se plausíveis confirmando-se as revelações mais recentes. É necessária apuração que elucide o comportamento do ministro e a sua versão divulgada na noite de sexta-feira. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, tem o dever de agir.
Alexandre de Moraes teve, sim, papel relevante na condução da eleição de 2022 e no processo sobre a tentativa de golpe de Estado. As dúvidas sobre a sua conduta, agora, não diminuem a sua atuação nessas passagens turbulentas da vida nacional. Mas tampouco o colocam acima da lei ou o tornam imune a ter ações devidamente examinadas. Defender instituições como STF não é sinônimo de ignorar transgressões de quem ocupa seus mais altos postos.





