Era inapelável que a Petrobras anunciasse um reajuste no preço do óleo diesel em suas refinarias. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (13), um dia após o governo federal comunicar medidas para conter o impacto da disparada das cotações internacionais do derivado devido ao conflito no Oriente Médio, deflagrado há duas semanas.
A estatal decidiu por uma elevação de R$ 0,38 por litro para as distribuidoras a partir deste sábado, o equivalente a uma alta de 11,6%. A isenção de PIS/Cofins para a importação e a comercialização do combustível, confirmada na quinta-feira, busca reduzir o preço em R$ 0,32 por litro, mas na bomba. Outra medida anunciada foi uma subvenção de mais R$ 0,32 para quem compra do Exterior ou produz diesel no Brasil, como a própria Petrobras.
Avolumam-se os relatos de agricultores gaúchos sobre falta de diesel para mover as suas máquinas em plena época de colheita
A desoneração combinada com o auxílio financeiro e o reajuste nas refinarias precisar ter, como principal reflexo, a mitigação do risco de desabastecimento de diesel. Ao abrir mão de arrecadação e optar por uma subvenção, o governo busca atenuar os movimentos de alta nos preços no mercado para o consumidor, embora seja difícil estimar qual será o resultado líquido, nos postos – ainda que a Petrobras calcule uma alta de apenas R$ 0,06. O incentivo à importação, por sua vez, tem o objetivo de estimular a retomada das aquisições do derivado no Exterior por operadores privados. Entre 20% e 30% do diesel consumido no país vêm de outros países. Mas a grande discrepância entre os preços praticados pela Petrobras e os do mercado internacional vinha paralisando as importações. Era lógico que, com esse quadro, a procura se concentraria na estatal, que não teria condições de suprir toda a demanda.
Espera-se que, com incentivos financeiros à importação, a oferta caminhe para a normalização. Há ainda outras providências à mão. A Petrobras pode elevar a aquisição de diesel no Exterior e, ainda que marginalmente, ampliar a produção interna. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, referiu a existência de ociosidade nas refinarias da estatal. Os governadores também começam a ser pressionados para reduzir o ICMS.
Avolumam-se os relatos de agricultores gaúchos sobre falta de diesel para mover as suas máquinas em plena época de colheita. Em meio a uma guerra de versões, não conseguem compreender a real causa da escassez. Perder os grãos na lavoura significa prejuízo em cadeia e inflação. Alguns municípios passam por racionamento, priorizando serviços como saúde e educação. Em outros, o transporte coletivo é prejudicado. É bem-vindo, se efetivo, o aperto na fiscalização, prometido para inibir abusos e atos especulativos na cadeia.
O momento é de incertezas pela imprevisibilidade da duração do conflito no Oriente Médio. Na sexta-feira, a cotação do petróleo do tipo brent estava na casa dos US$ 100. É crível que os preços sigam subindo. Se esse cenário indesejado se confirmar, mais deliberações serão necessárias, como novos reajustes pela Petrobras. É natural que governos com a popularidade combalida e em busca de recondução evitem ao máximo decisões que ao cabo oneram os cidadãos e a produção e semeiam efeitos inflacionários. Mas, neste momento, o mais grave seria arriscar passar por uma grave crise de desabastecimento. Muito mais danoso do que ter diesel caro é não ter o combustível que movimenta a economia.
