Enquanto o Rio Grande do Sul ainda se recupera dos estragos das enchentes históricas de 2023 e 2024, centros internacionais de meteorologia, como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), começam a alertar sobre a possibilidade da volta do El Niño neste ano. Como se sabe, o fenômeno costuma afetar o Estado com um maior volume de chuva, em especial na primavera. Embora até agora não exista razão para alarmismo, trata-se de um prognóstico que deve ser considerado no planejamento do poder público, de empresas, de agricultores e da população, sobretudo moradores de áreas de risco.
A avaliação do momento é de que o La Niña, que costuma trazer menos chuva para o Estado, está no fim. A seguir viria um período de neutralidade e, com o passar dos meses, crescem as chances de formação do El Niño. Ainda não há estimativas seguras quanto à intensidade do fenômeno. À frente, os modelos apresentarão maior grau de confiabilidade.
É preciso acompanhar de forma atenta a evolução dos prognósticos, trabalhar na prevenção de estragos e prejuízos e, dentro do possível, acelerar obras e reformas de sistemas que mitiguem os efeitos de precipitações volumosas e torrenciais
Sabe-se, de qualquer forma, que as mudanças climáticas tendem a potencializar os eventos climáticos, tornando-os extremos. É preciso acompanhar de forma atenta a evolução dos prognósticos, trabalhar na prevenção de estragos e prejuízos e, dentro do possível, acelerar obras e reformas de sistemas que mitiguem os efeitos de precipitações volumosas e torrenciais. O cuidado deve ser redobrado com zonas suscetíveis a inundação e a deslizamento de encostas.
Não há dúvida de que o Rio Grande do Sul, em termos de sistemas de alerta, está mais bem municiado do que em 2023 e 2024. Os municípios das regiões de maior risco, como o Vale do Taquari, passaram a contar com instrumentos que permitem ações preventivas mais ágeis. O Estado também dispõe agora de um serviço de modelagem hidrodinâmica capaz de prever a evolução do nível dos rios, o que é essencial para gerar informações a tempo de proteger a população de eventuais enchentes. Protocolos de alerta foram elaborados e as Defesas Civis estão mais bem equipadas e preparadas. Novos radares para monitorar a situação atmosférica foram instalados ou adquiridos. Centros urbanos como Porto Alegre, com alta impermeabilização do terreno, ainda têm de reforçar seus sistemas de drenagem. Projetos habitacionais para remover famílias de áreas vulneráveis estão em andamento. Concessionárias de energia desta vez precisam ter um planejamento robusto para não deixar milhares de gaúchos dias a fio sem energia por causa de temporais.
Ainda há muito para evoluir, no entanto, em obras mais estruturantes. Várias rodovias avariadas dois anos atrás ainda não têm os reparos concluídos e a reconstrução é planejada para que estradas e pontes consigam resistir a novos eventos extremos. Os grandes sistemas de proteção anticheia da Região Metropolitana permanecem no papel. Talvez outros sejam necessários. No mês passado, a prefeitura da Capital apresentou ao governo do Estado a sugestão de construção de um complexo voltado a evitar que uma nova enchente atinja o Aeroporto Internacional Salgado Filho.
No Rio Grande do Sul, castigado pela inclemência do clima nos anos recentes, não há mais como alegar surpresa.


