Os registros encontrados pela Polícia Federal no aparelho celular do banqueiro Daniel Vorcaro sobre os negócios da família de Dias Toffoli com o Banco Master elevaram significativamente a suspeição de conflito de interesse por parte do ministro para continuar como relator da investigação do escândalo financeiro que abala o país. Em consequência, pressionado por seus pares em reunião extraordinária convocada pelo ministro Edson Fachin para ontem, Toffoli optou por deixar a relatoria do caso. Não havia outra saída. Seu envolvimento direto em negócios com o réu da investigação, somado às medidas atípicas que ele vinha adotando em relação ao trabalho da Polícia Federal e às estranhas restrições impostas pelo Tribunal de Contas da União ao Banco Central, já colocava a Suprema Corte no centro de uma crise sem precedentes para a credibilidade do tribunal.
Não eram apenas ilações, como argumentava o ministro na defesa reticente da legalidade dos negócios da empresa familiar, da qual só nos últimos dias admitiu ser sócio oculto. Eram indícios muito claros do comportamento pouco republicano de um juiz da Suprema Corte na relatoria de um caso que tinha suas impressões digitais. Em novembro do ano passado, Toffoli pegou carona num jatinho particular com um advogado do banco, para assistir à final da Libertadores da América na capital peruana. Em janeiro deste ano, o jornal O Estado de S. Paulo revelou a venda de uma empresa dos irmãos de Toffoli para um fundo controlado pela administradora de investimentos ligada ao Banco Master. A administradora chamada Reag também é investigada na Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que apura um esquema de lavagem de dinheiro do PCC, facção do crime organizado.
Era evidente até para leigos que tais denúncias já deveriam ser suficientes para o ministro Dias Toffoli se declarar impedido de continuar na relatoria do caso
Era evidente até para leigos que tais denúncias já deveriam ser suficientes para o ministro Dias Toffoli se declarar impedido de continuar na relatoria do caso. Mas ele não apenas resistiu, como também vinha adotando medidas consideradas atípicas nos meios jurídicos, no sentido de restringir e dificultar o trabalho da Polícia Federal.
Antes que o STF fosse arrastado para o olho do furacão, com o risco de danos irreversíveis para a sua imagem e sua credibilidade, Fachin resolveu agir. Reuniu os ministros da Corte e conseguiu construir uma saída sensata: o Supremo apoia Toffoli nas suas decisões, mas ele solicita afastamento da relatoria do caso e abre espaço para a escolha de um novo relator.
Foi a solução mais sensata para o momento. Desde que assumiu o caso, Dias Toffoli só vinha adotando atitudes equivocadas: decretou sigilo absoluto na investigação, marcou uma desnecessária acareação entre o dono do Master e um diretor do Banco Central, reclamou da atuação da Polícia Federal e escolheu peritos da corporação para analisar material apreendido. Ontem mesmo, antes da reunião de enquadramento, determinou que todas as provas e transcrições de gravações fossem encaminhadas pela PF para ele. Agora, espera-se que o novo relator, André Mendonça, revogue as medidas insensatas e passe a dar total transparência e visibilidade ao caso, sem proteção a quem quer que seja.



