É inaceitável o suplício a que o INSS tem submetido milhões de beneficiários Brasil afora, especialmente idosos, por conta de sucessivas e inexplicáveis falhas em seu sistema informatizado nas últimas semanas. Quedas recorrentes no programa de reconhecimento facial de segurados, aposentados e pensionistas, por exemplo, têm resultado em um calvário cotidiano para quem se vê forçado a procurar uma agência.
Ao longo de três dias seguidos, na semana passada, quem acordou cedo e se dirigiu a uma unidade do instituto em cidades como Porto Alegre foi informado de que teria de voltar para casa em razão da impossibilidade de identificar digitalmente cada cidadão — pré-requisito para grande parte dos serviços prestados. Outras atribulações recentes, como o tamanho recorde da fila de espera por análise de benefícios e a fraude bilionária envolvendo descontos irregulares, indicam que o órgão precisa aprumar sua gestão com urgência.
O descaso oficial com uma parcela expressiva dos brasileiros se agravou em 19 de janeiro, quando beneficiários passaram a relatar dificuldades para acessar o aplicativo digital Meu INSS. Todo o sistema da autarquia federal ficou fora do ar entre 27 de janeiro e 1º de fevereiro para manutenção, mas os ajustes providenciados pela Dataprev — empresa pública responsável pela tecnologia — não acabaram com as agruras. Apuração da Globonews revelou, na sexta-feira, que servidores do instituto relatam instabilidades constantes que inviabilizam serviços como fornecimento do certificado do tempo de contribuição e revisão de benefícios.
A orientação de voltar para casa e buscar atendimento por um aplicativo ainda inconfiável é especialmente cruel quando envolve idosos que se deslocam a um balcão justamente pela dificuldade de lidar com ferramentas digitais
É impositivo que, em caráter emergencial, o governo adote soluções que permitam ao cidadão ao menos ser atendido ao se apresentar em uma unidade do INSS, mesmo que não seja possível contar, em um dado momento, com a tecnologia do reconhecimento facial. A justa e necessária adoção de medidas destinadas a dificultar a prática de fraudes por pessoas desonestas não pode resultar em tormentos para quem recorre ao instituto em busca do cumprimento de um direito. A orientação de voltar para casa e buscar atendimento por um aplicativo ainda inconfiável é especialmente cruel quando envolve idosos que se deslocam a um balcão justamente pela dificuldade de lidar com ferramentas digitais.
A atual crise nas plataformas utilizadas pelo INSS está longe de ser uma exceção em um ambiente de eficiência. No final de 2025, o contingente de brasileiros à espera de análise de algum tipo de benefício bateu novo recorde e superou a barreira de 3 milhões de pessoas que aguardam avaliação de aposentadorias, pensões ou auxílios diversos — 49% de aumento em relação ao mesmo período do ano anterior. Os indicativos de má gestão incluem ainda a revelação das fraudes cometidas por meio do desconto indevido de mais de R$ 6 bilhões nos proventos de aposentados e pensionistas desde 2019.
Chama atenção que, em um país onde a proporção de idosos quase dobrou em uma década e chegou a 16% da população, o braço governamental responsável por garantir direitos fundamentais a essa faixa etária ainda apresente deficiências tão expressivas e prolongadas. É hora de o governo dar ao INSS e aos seus milhões de beneficiários a atenção de que precisam.


