É ultrajante a desconsideração com que beneficiários do INSS têm sido tratados desde a última semana. Na agência da Rua Jerônimo Coelho, no Centro Histórico da Capital, idosos amanhecem e permanecem horas em longas filas à espera de uma solução que poucos conseguem. A reportagem da Rádio Gaúcha e da RBS TV mostrou cidadãos em idade avançada que, apesar dos riscos, decidem passar a noite na frente do local, dormindo na calçada, na esperança de serem atendidos.
Todos esses fatores eram conhecidos e deveriam ter merecido uma ação preventiva para evitar deixar os cidadãos sem acesso aos seus direitos
Os transtornos se devem ao fato de o aplicativo Meu INSS permanecer na maior parte do tempo inoperante desde o dia 19 de janeiro. A dificuldade se repete com a central telefônica 135. O sistema teria ficado sobrecarregado devido à grande procura por crédito consignado pelos aposentados. Com o aumento do salário mínimo e dos benefícios previdenciários, aumenta a margem disponível para operações do gênero. Relatos colhidos pela reportagem mostram pessoas que revelam precisar do dinheiro para comprar remédios. A situação também serve para ilustrar o quadro de aperto financeiro de um grande número de aposentados, com dificuldades para adquirir o básico.
Conforme o INSS, o problema é uma falha da Dataprev, empresa pública de tecnologia responsável pelo gerenciamento dos dados do instituto. A Dataprev alega que houve crescimento atípico de acessos nos últimos dias, o que travou os sistemas. O próprio presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, em entrevista para o Atualidade, da Rádio Gaúcha, ontem, considerou a explicação insuficiente. O reajuste do salário mínimo, afinal, é usual nesta época. A Dataprev também credita o crescimento dos acessos à necessidade de desbloqueio do empréstimo por meio do cadastramento de biometria, medida válida desde novembro do ano passado. E ainda à indisponibilidade programada dos sistemas entre quarta e sexta-feira desta semana, para a implementação de melhoria.
Todos esses fatores eram conhecidos e deveriam ter merecido uma ação preventiva para evitar deixar os beneficiários sem acesso aos seus direitos. Conforme o presidente do INSS, o instituto cobra diariamente a Dataprev, que não consegue dar uma previsão segura de normalização dos serviços. Em busca de uma solução, os cidadãos se deslocam para agências como a da Rua Jerônimo Coelho, que dispõem de atendimento espontâneo (sem necessidade de agendamento prévio), mas o sistema interno do INSS apresenta a mesma indisponibilidade recorrente.
Para agravar o quadro, o INSS cometeu um erro crasso de comunicação na sexta-feira ao emitir um comunicado dando a entender que todas as agências do país estariam abertas no sábado para atendimento extra. No Estado, entretanto, apenas a unidade de Bagé operou, para perícias. As cenas lamentáveis em agências como a do Centro de Porto Alegre se repetiram, com cidadãos em idade avançada e com dificuldade de locomoção se deslocando até o local em vão. É mais um caso recente a demonstrar as agruras dos dependentes do INSS, como os descontos em folha fraudados que atingiram mais de 4 milhões de pessoas e a fila recorde de quase 3 milhões de requerimentos pendentes. Os beneficiários merecem respeito e uma gestão mais competente.

