Avizinha-se, enfim, o início do ciclo de corte do juro no Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou na quarta-feira a decisão de manter a Selic em 15% ao ano, mas no comunicado sinalizou que tende a começar a cortar a taxa na reunião do colegiado em março, caso se mantenha o cenário de inflação mais comportada e arrefecimento do ritmo da atividade econômica. O patamar atual, o mais contracionista desde 2006, vigora desde junho do ano passado, e se espera que em breve passe a ser deixado para trás.
A possibilidade de o país ter um custo de capital mais próximo do razoável depende de um freio de arrumação nas contas públicas
Não há dúvida de que a Selic chegou ao estágio em que está e se mantém por tanto tempo pela exigência de compensar os estímulos fiscais do governo federal, que mantiveram as expectativas de inflação desancoradas. Também pela necessidade adicional de a gestão de Gabriel Galípolo conquistar credibilidade perante o mercado e mostrar-se rigorosa diante dos temores de que um indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria mais leniente com a alta dos preços.
Se a escalada da Selic teve as suas justificativas, também é verdade que o nível alcançado fez estragos na saúde financeira das famílias e das empresas. Ajudou a elevar o endividamento e a inadimplência a níveis críticos. O juro real brasileiro, no fim das contas, está na casa extorsiva dos 10%, um dos mais altos do mundo e fruto do conflito entre a expansão fiscal do Planalto e o esforço do BC para domar a inflação. Crédito caro também inibe investimentos produtivos, o que adiante reduz a oferta e pode realimentar a inflação.
Mas interessa, agora, olhar para frente. Aguarda-se que não surjam surpresas desagradáveis no horizonte e o Copom possa materializar a indicação, com um corte de 0,25 ou 0,5 ponto percentual na reunião de março. Um dos fatores que dão conforto, neste momento, é a desvalorização significativa do dólar. A expectativa do mercado, no entanto, é de que a Selic encerre 2026 na casa dos 12% ao ano. Ainda é um nível bastante restritivo e, como os efeitos da política monetária em transição demoram meses para serem sentidos na economia real, o alívio será relativamente modesto e o país continuará com um juro muito distante de um padrão civilizado.
A possibilidade de o país ter um custo de capital mais próximo do razoável depende de um freio de arrumação nas contas públicas. Em 2027, o próximo presidente da República, seja qual for, terá de bancar um ajuste fiscal duro, sem subterfúgios para dourar a pílula. O governo federal divulgou ontem que, oficialmente, encerrou 2025 com um déficit de R$ 13 bilhões, o equivalente a 0,1% do PIB. Formalmente, cumpriu a meta fiscal que previa déficit zero, com margem de tolerância negativa de até 0,25% do PIB. Na prática, porém, o resultado foi alcançado com a exclusão de diversos gastos da contabilidade. Assim, o verdadeiro rombo foi de R$ 61,7 bilhões.
Pelas projeções do próprio Tesouro Nacional, a dívida bruta do país pode alcançar o patamar explosivo de 95% do PIB em 2035. No ano passado, fechou 79,3%. Trata-se de um importante indicador da sustentabilidade das contas do país. O cenário desafiador mostra uma bomba-relógio que precisa ser desarmada.



