Não há contradição em reconhecer os inequívocos avanços na segurança pública do Estado e ao mesmo tempo apontar para um mal-estar recente na sociedade gaúcha relacionado a atendimento de chamados e abordagens da Brigada Militar (BM) que acabaram em tragédia. São os casos do agricultor morto em Pelotas na madrugada de quinta-feira e os de pessoas em surto que restaram também vitimadas por tiros em Santa Maria, na terça-feira, e em Porto Alegre, em setembro do ano passado. É uma inquietação que exige uma análise do Palácio Piratini e dos gestores da área para encontrar formas de evitar situações semelhantes de mortes de pessoas que não são envolvidas com crimes. O governador Eduardo Leite, de forma sensata, sinalizou nesse sentido na sexta-feira.
Isso não exime a BM de procurar formas de evitar a utilização da força letal como reação imediata
As estatísticas da criminalidade no Estado em 2025, divulgadas na quinta-feira, trazem outra vez boas notícias. Foi, novamente, o ano mais seguro da atual série histórica de indicadores, com nova queda de homicídios, latrocínios, roubos e outros delitos contra o patrimônio. Os feminicídios destoam e preocupam. Voltaram a subir, após dois anos de queda. O enfrentamento desse crime, no entanto, é mais complexo por envolver fatores como a cultura ainda arraigada do machismo.
A Brigada Militar, com sua atuação ostensiva e maior presença em municípios problemáticos, tem inegável mérito na redução da insegurança no Estado. Ainda assim, os acontecimentos recentes mostram que há situações mal conduzidas, com desfechos desastrosos e que deixam um rastro de dor nos familiares das vítimas. É verdade que são exceções em meio às incontáveis intervenções diárias de policiais militares, homens e mulheres também expostos cotidianamente a riscos pelo ofício que exercem. Mas são casos que assustam e geram o temor de que se repitam mais vezes.
Não deve existir receio ou resistência à orientação por uma revisão de procedimentos operacionais em determinadas situações, a ser feita tanto à luz das melhores práticas internacionais como da própria experiência local. Nem de reforçar a importância de normas e protocolos básicos serem respeitados. No caso de Pelotas, o açodamento da ida à propriedade parece evidente. Da mesma forma, esperam-se investigações rigorosas que elucidem os fatos e apurem eventuais responsabilidades de maneira imparcial, sem contaminação de corporativismo.
Reconhecer que há algo errado não é desabonador para a BM. Ao contrário, mostra o interesse em corrigir o que for necessário para melhor servir a sociedade gaúcha. A promessa de um regramento para a ação conjunta com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para o auxílio em casos de emergência psiquiátrica é um exemplo dessa conduta.
Convém registrar que a letalidade policial no Estado não é alta na comparação com a realidade nacional. Conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a taxa em 2024 foi de 1,3 morte por 100 mil habitantes. É a 11ª mais baixa. A média brasileira é de 2,9. Isso não exime a BM de procurar formas de evitar a utilização da força letal como reação imediata. A busca pelo aperfeiçoamento ou pela correção de rumos é inerente a todas as profissões e atividades humanas. Agindo assim, a BM reforçará a boa reputação institucional conquistada em seus 188 anos de história.




