O mundo volta as atenções para o Irã, onde está em curso a maior onda de protestos populares contra a ditadura do líder supremo Ali Khamenei desde 2009. A reação do regime dos aiatolás é impiedosa. A censura reinante e o recente bloqueio do sinal de internet, como forma de evitar a disseminação de informações e as convocações para as manifestações, dificultam conhecer a real dimensão da revolta e o resultado da repressão policial. Na tarde de domingo, organizações não governamentais estimavam ao menos 500 mortos e mais de 10 mil pessoas presas. Entre as vítimas fatais, em torno de 490 seriam manifestantes.
Com mão de ferro, a teocracia iraniana tolhe de forma implacável as liberdades individuais e é violadora contumaz de direitos humanos
As imagens de redes sociais com veracidade checada por agências de notícias e veículos de imprensa, no entanto, confirmam que os protestos são massivos, em mais de uma centena de cidades. Ativistas de diretos humanos que monitoram a situação falam em “massacre” e “assassinatos em massa”. Mas, a despeito do quadro de repressão violenta contra a população civil, até este domingo o Itamaraty e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permaneciam sem se manifestar em relação ao desenrolar dramático dos acontecimentos.
A omissão até aqui confirma o pendor do governo Lula para a indignação seletiva na política externa. Se o arbítrio parte de um regime parceiro, opta-se pelo silêncio ou pela relativização. Os autocratas venezuelanos Hugo Chávez e Nicolás Maduro contaram por anos a fio com essa condescendência, assim como Daniel Ortega, na Nicarágua. Outro momento constrangedor para o país foi o envio do vice-presidente Geraldo Alckmin à posse do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, em julho de 2024. O evento foi prestigiado por figuras como o então chefe do grupo terrorista Hamas, Ismail Haniyeh. Em 2024, o Irã também se juntou ao Brics, contribuindo para dar uma feição mais antiocidental ao bloco. Em maio do ano passado, o embaraço para os brasileiros verdadeiramente democratas foi a ida de Lula a Moscou para a cerimônia organizada pelo déspota Vladimir Putin para celebrar os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, na companhia de 19 ditadores.
Sabe-se que os protestos no Irã, deflagrados ainda nos últimos dias do ano passado, tiveram inicialmente motivação econômica. O país vive uma crise com forte desvalorização da moeda e inflação crescente. Com o passar dos dias, a repressão estatal feroz às manifestações realimentou a mobilização nas ruas e o caldeirão de insatisfações com o regime transbordou. A renúncia de Khamenei, no poder desde 1989, passou a ser palavra de ordem das multidões.
Com mão de ferro, a teocracia iraniana tolhe de forma implacável as liberdades individuais e é violadora contumaz de direitos humanos. Persegue opositores e reprime minorias. Exporta instabilidade. Financia o Hamas e outros grupos armados, como o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen. Insiste em ter arsenal atômico. O Irã será um lugar melhor para o seu povo se esse mesmo povo oprimido forçar a queda do regime. Ganhariam também o Oriente Médio e o mundo, com um foco de tensão a menos. Mas, seja qual for o desenlace, é dever moral do Brasil condenar a violência empregada pelo governo dos aiatolás e o derramamento de sangue da população civil.

