Ainda que não exista comparação entre o grau de domínio territorial exercido por traficantes em comunidades do Rio de Janeiro e a atuação de facções gaúchas, causa espanto o caso que levou a uma operação da Polícia Civil, nesta quarta-feira, em São Leopoldo. A ação prendeu oito pessoas e cumpriu mandados de busca e apreensão para desarticular um núcleo criminoso que há cinco anos controlava o condomínio popular Vila Germânica, no bairro Santos Dumont.
Assim como nos morros cariocas, o grupo era vinculado a uma facção e impunha medo aos moradores, para que não reagissem à dominação. Extorquiam e ameaçavam os residentes. Algumas pessoas, temendo represálias, deixaram de viver no local. O controle, formalmente, era praticado pelo síndico, vinculado à organização. Ele utilizava as contas do condomínio para lavar o dinheiro do tráfico de drogas. As cotas condominiais eram recolhidas, mas não era paga, por exemplo, a fatura de água para a companhia de saneamento. O dinheiro era desviado para financiar atividades criminosas. Até a empresa de vigilância que prestava serviço para o Vila Germânica pertencia a uma pessoa ligada à organização.
Espera-se que a ofensiva policial ponha fim nos anos de opressão e que os moradores do Vila Germânica voltem a tocar o dia a dia sem receios
A situação do condomínio de São Leopoldo não é única. Já vieram a público outros casos de conjuntos habitacionais populares onde traficantes se instalaram e passaram a impor terror aos moradores, apossando-se até de apartamentos. A situação do Vila Germânica, ao que parece, difere pelo uso das finanças do condomínio para dissimular o capital amealhado com outros negócios ilícitos.
Merece registro que a origem da operação vigorosa desta quarta-feira, fruto de três meses de investigações da 2ª Delegacia de Polícia de São Leopoldo, está na decisão corajosa dos moradores de não mais se submeterem ao jugo da facção. A reviravolta ocorreu a partir da morte do síndico, em agosto. Outro homem atrelado ao grupo criminoso quis herdar o posto, o que gerou revolta dos condôminos e a determinação para convocar uma assembleia e indicar um administrador profissional. A partir daí, a tentativa de coagir e ameaçar os moradores recrudesceu. Por segurança, a reunião para eleger o novo síndico ocorreu no Fórum da cidade.
Espera-se que a ofensiva policial ponha fim nos anos de opressão e que os moradores do Vila Germânica voltem a tocar o dia a dia sem receios. É preciso eliminar não apenas a ingerência da facção sobre a administração do condomínio, mas qualquer outro tipo de influência que atrapalhe a convivência pacífica entre os vizinhos. Para isso, é necessário manter um contato estreito com as forças de segurança do Estado.
O episódio de São Leopoldo é apenas mais um a ilustrar o caráter maléfico do crescimento e da capilarização das facções, o que exige um combate sem trégua das instituições gaúchas e nacionais. Trata-se de um dos grandes desafios atuais do país. São grupos que, muito mais do que traficar drogas, mantêm tentáculos em uma série de outras atividades ilícitas, são transnacionais e tentam se entranhar no poder público e se inserir na economia formal. Seus braços menos sofisticados se encarregam de espalhar medo e atormentar os cidadãos honestos, preocupados apenas em cuidar de suas famílias e viver em paz.





