O mercado de ações do Brasil vive um aparente paradoxo. O índice Ibovespa, referência por reunir os papéis mais negociados na B3, está nas máximas nominais históricas. No ano, sobe 30%, impulsionado pela entrada de investidores estrangeiros. Ainda assim, não há interesse de novas empresas em abrir o capital no país. Pelo contrário. A bolsa de valores vem perdendo companhias. Trata-se de mais um sinal de desarranjo macroeconômico.
A seca de IPOs – sigla em inglês que significa começar a negociar ações em bolsa – vem desde o final de 2021, um ano fértil em aberturas de capital. À época, a B3 tinha 463 companhias listadas. Ao final de 2025, deve cair para em torno de 420. O que mudou? Há quatro anos, a taxa Selic, o juro básico da economia, era de um dígito. No início daquele ano, ainda estava em 2%, ante os estratosféricos 15% de hoje. A Selic em aceleração desde então tornou paulatinamente mais atraente aplicar na renda fixa, amealhando ganho significativo sem risco. O mercado acionário, ao contrário, pode trazer altos ganhos, mas também prejuízos.
A seca de IPOs – sigla em inglês que significa começar a negociar ações em bolsa – vem desde o final de 2021
O assunto, embora árido e com aparência de abstrato para a maioria dos brasileiros, tem reflexos na economia real. O capital investido em juro pouco ou nada produz em termos de geração de riqueza que se espalha para a sociedade. Mas as empresas, quando abrem capital, estão captando dinheiro para aplicar em expansão, modernização, equipamentos, desenvolvimento de novos produtos e uma série de outros fins que vão gerar competitividade e crescimento para a companhia, com impacto no emprego e na renda. Um mercado de capitais que se desenvolve é sinal de um país que progride. Há outras implicações positivas. Empresas abertas têm de ser mais transparentes e assumem mais responsabilidades perante todos os públicos, desde os investidores até as comunidades onde estão presentes.
Os recordes recentes do mais famoso índice da B3, ademais, não contam toda a verdade. Os estrangeiros costumam olhar para um fundo chamado EWZ, negociado na bolsa de Nova York. De forma simplificada, é um Ibovespa convertido em dólares. Por essa métrica, as empresas brasileiras seguem muito abaixo das cotações máximas, anteriores à crise global de 2008. Ao cabo, em moeda forte as principais empresas brasileiras perderam valor. Vendo os ativos depreciados, partem para a recompra de ações, tirando parte dos papéis de circulação, ou optam por fechar por completo o capital.
O histórico de juro alto no Brasil, ainda que com períodos de alívio no torniquete monetário, é um dos fatores que inibem a formação de uma cultura de investimentos de longo prazo em ações de empresas, como ocorre nos EUA, por exemplo. Aqui, a aplicação mais popular é a poupança, chamada de Robin Hood às avessas pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Depois, vêm as opções de renda fixa como as ligadas ao CDIs, para públicos mais bem informados. Um mercado acionário mais pujante, que ajude a população a construir patrimônio e ao mesmo tempo seja fonte de financiamento a melhor custo para as empresas, depende de responsabilidade fiscal e mudanças estruturais que ajudem o país a ter e manter um juro civilizado.



