O ano de 2025 foi mais uma vez pródigo em anúncios do poder público de programas, investimentos e mutirões para reduzir as filas de espera por atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A despeito das promessas, os números mostram que as ações propagandeadas não surtiram efeito. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo repórter Giovani Grizotti indicam que hoje, no Estado, existem 667 mil pedidos de consulta pendentes. Ao final de 2024, eram 670 mil. Uma redução ínfima, ainda mais levando-se em consideração os compromissos assumidos por governo federal, Piratini e prefeituras. As especialidades mais procuradas são oftalmologia e ortopedia.
As situações são de maior ou menor gravidade, mas em todas elas o fator tempo é essencial para o problema ser resolvido ou amenizado
Os relatos colhidos por Grizotti dos gaúchos de carne e osso por trás das estatísticas frias são dolorosos. Um aposentado aguarda desde 2021 consulta com um especialista em ouvidos. Teme ficar surdo antes de ser atendido. Outro caso é o de um cidadão que há sete anos espera para ser recebido por um médico especializado em tratamento bariátrico. Uma dona de casa sofre há dois anos sem ser chamada para o acompanhamento do filho com transtorno do espectro autista. Um paciente que precisa tratar a próstata e fez a biópsia há dois anos reclama de ainda não ter conseguido um médico para mostrar o exame.
As situações são de maior ou menor gravidade, mas em todas elas o fator tempo é essencial para o problema ser resolvido ou amenizado. No mínimo, há perda de qualidade de vida pelo desrespeito a um direito assegurado pela Constituição. Nas circunstâncias que envolvem doenças como o câncer, a demora pode ser a chance desperdiçada de cura. Outra reportagem de Grizotti sobre o tema, publicada em janeiro, apontou que 2,4 mil pessoas que estavam na fila da agonia do SUS perderam a vida antes de chegar a um consultório. Ainda que não se possa fazer a relação direta da morosidade com a morte em todos os casos, é um número impactante por revelar esperas em vão.
Em janeiro, a prefeitura de Porto Alegre informou que a prioridade do município era reduzir as filas. A Secretaria Estadual da Saúde (SES) dizia adotar medidas com o mesmo objetivo. O Ministério da Saúde alegou trabalhar continuamente para diminuir os represamentos. Menos de um ano depois, o quadro é praticamente o mesmo. Para não dizer que nada avançou, no mês passado a Capital noticiou ter zerado filas para exames de ressonância magnética, oncologia mamária, radioterapia e mamografia.
Mas os grandes números do RS teimam em mostrar uma situação dramática. Deve-se acompanhar os anúncios mais recentes para verificar se haverá algum avanço significativo. Em maio, o governo federal apresentou o programa Agora Tem Especialistas. Além das instituições públicas, usará estabelecimentos privados e filantrópicos. A SES sustenta que, até o final do ano, pretende reduzir em pelo menos 70% as maiores filas de espera, como ortopedia de joelho e oftalmologia geral adulto, por meio do programa SUS Gaúcho, lançado em setembro. Para as centenas de milhares de rio-grandenses sem condições de pagar um plano de saúde ou um atendimento particular e que seguem aguardando um chamado, a esperança é, desta vez, as promessas serem cumpridas.

