O tom cordial do encontro entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, na Malásia, consolidou a percepção de que temas políticos não são mais obstáculo para os dois países negociarem o fim da taxação de 50% sobre as exportações brasileiras de uma série de itens. Com números e fatos à mesa e conversas baseadas na racionalidade, passa a ser mais crível projetar um acordo comercial. O tarifaço castiga de forma desproporcional o Estado, que vende para os EUA principalmente produtos de maior valor agregado que não foram beneficiados pela lista de exceções da oneração máxima imposta pela Casa Branca.
O tarifaço castiga de forma desproporcional o Estado, que vende para os EUA principalmente produtos de maior valor agregado
Sem o componente ideológico a explicar o tratamento desarrazoado dispensado ao Brasil, não há justificativa coerente para a barreira de 50% persistir. Hoje apenas a Índia está submetida a carga semelhante. A China, principal adversária comercial e geopolítica dos EUA, foi ameaçada por uma tarifação adicional de 100% a partir do dia 1º de novembro, mas hoje paga 30%. A guerra tarifária de Trump com o mundo, aliás, foi deflagrada com o objetivo de diminuir o déficit comercial norte-americano, mas desde 2009 os EUA são superavitários com o Brasil. A declarada intenção de Trump de chegar a um denominador comum com o governo Lula, instruindo auxiliares a prosseguir nas tratativas, é sinal de que o pragmatismo volta a se impor. Do lado brasileiro, há otimismo com a possibilidade de novas rodadas de negociações ocorrerem na próxima semana e de um desfecho ser anunciado ainda neste ano.
De qualquer forma, convém moderar as expectativas. Mesmo que parte dos interesses dos EUA seja conhecida, como o ingresso do etanol norte-americano no mercado brasileiro e um acerto que dê garantia a Washington de acesso facilitado aos minerais estratégicos do país, não há como garantir a inexistência de novas exigências que apenas ainda não vieram a público.
O comportamento mercurial do republicano deve ser considerado. Ontem, um dia após uma reunião com ares promissores, ao ser questionado sobre as chances de um acordo com o Brasil, Trump foi evasivo e soltou um "vamos ver" e um "não sei se alguma coisa vai acontecer". Ainda é preciso levar em conta que, diante da repercussão que tomou o tarifaço contra o Brasil, inclusive com tentativas de ingerência no Judiciário nacional e sanções a autoridades, dificilmente o presidente dos EUA simplesmente recuaria como gesto de boa vontade. Mesmo que a taxação prejudique os próprios consumidores norte-americanos e exista a atuação de empresas dos EUA para remover os entraves tarifários aos negócios, é certo que Trump vai exigir do Brasil concessões ou promessas de investimentos e compras que possa brandir como uma vitória ao seu público interno.
É dever ressaltar que ao menos o diálogo, antes obstruído, passou a fluir. Trata-se de um passo relevante, embora o caminho à frente continue tortuoso. O desafio dos negociadores agora é costurar um acordo que permita suspender ou amenizar o tarifaço. Para o Estado, fica a expectativa de ser viável também obter um alívio tarifário dos produtos industriais de setores que Trump quer proteger ou incentivar a manufatura nos EUA.




