Toma proporções preocupantes o cerco militar montado pelos EUA nas proximidades da costa sul-americana, no Pacífico e no Mar do Caribe. A pressão armada, a pretexto do combate ao tráfico de drogas, já levou ao ataque a 10 barcos de pequeno porte. Supostamente estariam carregados de entorpecentes, apesar de Washington até agora não ter apresentado qualquer prova para sustentar as alegações. As mortes nos bombardeios chegam a 43. Como pano de fundo está o assédio ao regime do ditador venezuelano Nicolás Maduro, com a aparente pretensão de apeá-lo do poder, e a tensão crescente com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro. Trump já admitiu a realização de operações terrestres na Venezuela e insinuou o mesmo em relação à Colômbia. Na quinta-feira, mais categórico, afirmou que em breve fará uma ofensiva por terra contra cartéis de drogas, sem especificar em qual país.
EUA criam o risco de conflitos, violência política e mais radicalização
É bastante temerária a postura intervencionista de Trump, que lembra os momentos mais nervosos da Guerra Fria na região. Se levarem adiante as ameaças, os EUA criarão uma instabilidade não vista há décadas na América do Sul, com o risco de conflitos, violência política e mais radicalização. Por mais que a autocracia de Maduro seja execrável e seu mandato atual fruto de uma fraude eleitoral, uma intromissão unilateral via força em outro país não encontra qualquer amparo no direito internacional. O governo norte-americano, que acusa Maduro de envolvimento em narcotráfico, tem o direito de defender o seu território do ingresso de drogas. Mas há limites. Um grupo de especialistas independentes nomeados pela ONU alertou na semana passada que o abate em águas internacionais viola as leis consensuadas entre nações e se constitui em execução extrajudicial.
O tema preocupa o Brasil. Em especial no caso da Venezuela, pelo risco de algum tipo de conflito. São muitas as implicações, como uma nova crise de refugiados. Está previsto para este domingo, na Malásia, um encontro entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O comércio é a pauta principal, mas é possível que o tema da Venezuela surja. Lula terá de ser hábil para tratar dos assuntos econômicos que importam ao Brasil e tocar de forma construtiva na questão venezuelana sem deixar que isso prejudique a reaproximação entre os dois governos e as negociações sobre o tarifaço.
Resta claro que se trata de um impasse de difícil solução. Os organismos internacionais que deveriam atuar para evitar conflitos, como a própria ONU, não têm mais qualquer força. Sob Trump, os EUA tentam impor a lei do mais forte em temas militares e econômicos. Ademais, é sempre tarefa ingrata compreender as reais motivações do republicano. Ainda assim, as melhores chances de se encontrar uma saída estão na diplomacia.
Os próprios EUA têm de ser lembrados de intervenções militares que se tornaram um atoleiro, como no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão, e de que inúmeras tentativas mais recentes de derrubar governos tornaram esses regimes mais fechados e repressivos. Diz-se que os EUA, após décadas de desinteresse pela América do Sul, agora tentam recuperar influência, afastando a região da China. A doutrina da coerção econômica e e pelas armas é um caminho equivocado.



