Em um país desigual como o Brasil, e ainda com índices alarmantes de pobreza, é sempre motivo de satisfação saber que os números da insegurança alimentar estão em queda. O desafio é manter o caminho de melhora de indicadores socioeconômicos de forma sustentável, evitando retrocessos vistos no passado.
No final de julho, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou relatório mostrando que o país, com base nos dados do triênio entre 2022 e 2024, havia voltado a deixar o chamado Mapa da Fome. Ou seja, menos de 2,5% da população não consumia, de forma habitual, a quantidade de calorias necessárias para manter uma vida saudável. Na sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em outro levantamento, confirmou a tendência. Conforme os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, a proporção de lares com algum nível de insegurança alimentar no país caiu de 27,6% para 24,2% na passagem de 2023 e 2024.
É motivo de alerta, neste momento, a propensão do governo Luiz Inácio Lula da Silva de turbinar programas que possam render dividendos eleitorais em 2026 sem preocupação com a saúde das contas públicas
O Rio Grande do Sul, em posição relativamente privilegiada, é o terceiro Estado com a maior participação de domicílios em condição de segurança alimentar: 84,2%, enquanto a média nacional é de 75,8%. A situação dos lares gaúchos também melhorou ante 2023, um dado relevante diante de um ano de dificuldades para um número significativo de famílias gaúchas e para a própria economia local, impactada pela enchente histórica de maio.
No país, apesar da melhora dos números, ainda existem 18,9 milhões de famílias que convivem com a insegurança alimentar. Dessas, 6,48 milhões permanecem passando fome. É preciso continuar a reduzir a quantidade de brasileiros nessa condição ultrajante e evitar que a chaga da falta de comida volte a recrudescer. Embora programas de transferência de renda tenham grande relevância em momentos de crise e para famílias em situação de vulnerabilidade, a chave para que mais brasileiros façam as refeições necessárias é uma economia que cresça de maneira sadia, constante e sem sobressaltos. Assim, o mercado de trabalho permanece forte como está e a renda segue em alta.
Mas mostram as experiências do início da década passada que é inconsequente forçar um crescimento artificial que cause desarranjo fiscal e leve a uma maior pressão inflacionária e à manutenção do juro em patamar estratosférico. É motivo de alerta, neste momento, a propensão do governo Luiz Inácio Lula da Silva de turbinar programas que possam render dividendos eleitorais em 2026 sem preocupação com a saúde das contas públicas. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou no final da semana passada que o Planalto prepara um pacote de bondades com impacto de mais R$ 100 bilhões para o próximo ano, mas que dependem de receitas ainda sem garantia e de possíveis manobras orçamentárias. Tudo que os brasileiros não querem reviver é a crise do governo Dilma Rousseff. À época, a irresponsabilidade movida a populismo transformou um período de mercado de trabalho forte, renda em alta e queda da fome em uma crise econômica e de desemprego de grandes proporções. O filme em cartaz hoje parece já ter sido visto, e o final não é feliz.



