Obsessão dos maus perdedores em disputas eleitorais recentes, a obrigatoriedade de voto impresso passou pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado (CCJ) e avança para as demais instâncias do Congresso Nacional como parte do projeto do novo Código Eleitoral. E não é a única aberração entre as mudanças pretendidas: a flexibilização da Lei da Ficha Limpa, que abre brecha para a candidatura de políticos que estejam cumprindo condenações, a liberação do autofinanciamento de campanhas e a redução da quarentena para agentes públicos também revogam avanços democráticos comprovados e reconhecidos pela maioria dos cidadãos brasileiros.
A falsa ideia de que a emissão em papel serve de comprovante para a lisura do pleito tem apenas um objetivo: deslegitimar o processo eleitoral
Mas o ponto que causa maior perplexidade no texto aprovado é a nova investida pelo voto impresso, desnecessário, dispendioso e inútil até para os propósitos políticos alegados por seus defensores. Na verdade, a falsa ideia de que a emissão em papel serve de comprovante para a lisura do pleito tem apenas um objetivo: deslegitimar o processo eleitoral. Antes das urnas eletrônicas — reconhecidas como seguras, ágeis e eficientes por observadores internacionais e consideradas confiáveis por 80% dos eleitores, de acordo com pesquisas realizadas depois das últimas eleições —, as fraudes eram constantes nos pleitos eleitorais do país.
Não é, porém, por falta de memória nem pelo desejo de moralização que alguns parlamentares batem pé pelo registro em papel. É, muito mais, pela inconformidade da derrota de seus líderes e correligionários em eleições recentes — ainda que eles próprios tenham sido eleitos pelo mesmo sistema eletrônico — e pela pretensão demagógica de conquistar a simpatia de eleitores resistentes aos avanços tecnológicos.
As urnas eletrônicas já foram submetidas a todas as provas possíveis de confiabilidade sem que nenhuma adulteração tenha sido constatada. Testes públicos de segurança são realizados pela Justiça Eleitoral a cada pleito. Além disso, diversos mecanismos de auditoria e verificação de resultados podem ser efetivados por candidatos, partidos e coligações, como também pelo Ministério Público, por instituições sociais e pelo próprio eleitor. Existe, inclusive, uma Cerimônia de Votação Paralela, pela qual são sorteadas urnas para verificação em audiência pública, com registros em vídeo. Por fim, os boletins de urna, que podem ser confrontados com os resultados das seções eleitorais, ficam à disposição do público.
Ainda assim, as teorias conspiratórias sobrevivem e ganham força quando políticos, por desconhecimento ou oportunismo, abraçam a causa de quem prefere ignorar a realidade. É o que parece ocorrer novamente neste movimento pelo retorno do voto impresso como complemento do sistema eletrônico. A recente decisão da Comissão de Constituição e Justiça ainda terá que ser submetida ao plenário do Senado e voltar à Câmara porque o projeto inicial foi modificado. Há tempo, portanto, para que a maioria dos deputados e senadores revise os equívocos sugeridos e elabore um Código Eleitoral compatível com a importância do pleito de 2026 e com a vontade inequívoca dos brasileiros por eleições livres e limpas.


