Diante do impacto da decisão abrupta de Donald Trump de tarifar as importações brasileiras em 50% e das alegações fraudulentas e descabidas elencadas pelo presidente norte-americano, não restava alternativa ao governo Luiz Inácio Lula da Silva fora de uma resposta pública dura à Casa Branca. Os próximos movimentos do Planalto para evitar prejuízos graves à economia nacional caso o tarifaço entre de fato em vigor a partir de 1º de agosto exigem mais sangue frio e cuidado com a estridência retórica.
Os próximos movimentos do Planalto para evitar prejuízos graves à economia exigem sangue frio e cuidado com a estridência retórica
A despeito da imprevisibilidade de Trump, é a racionalidade que o Brasil tem de usar para contornar a crise, talvez a mais delicada entre as duas nações. Este ponto, aliás, precisa ser levado em conta pelas partes. Apesar de momentos de estremecimento, são 201 anos de vínculos diplomáticos. Governos passam, Estados ficam.
A estratégia brasileira deve ser centrada na negociação técnica. Em primeiro lugar, insistir na demonstração de que os EUA são superavitários nas trocas comerciais com o Brasil desde 2009. Ao esforço do Itamaraty e do Executivo podem se somar as empresas e entidades dos setores atingidos, como os de aeronaves, aço, carnes, café e suco de laranja. Convém buscar o auxílio dos importadores norte-americanos que, se quiserem, comprovam facilmente às autoridades dos EUA a lógica ruim da tarifação para a economia e os consumidores locais.
No aço, há complementaridade. O Brasil fornece semiacabados aos EUA, onde são transformados em produto final. Mas, mesmo que o argumento original da guerra tarifária seja levar a produção para o território norte-americano, é simples, à luz da razão, mostrar que brasileiros não irão para os EUA plantar café ou laranja para suco ou criar gado. O rebanho bovino norte-americano declina, quase metade do suco e um terço do café adquiridos pelos EUA são do Brasil.
É aconselhável, da mesma forma, observar como outros países lidam com Trump. Em especial os que, avalia-se, têm se saído bem. Entre eles estão México e China, ambos superavitários na relação com os EUA. No caso mexicano, a presidente Claudia Sheinbaum adotou uma postura de agir com cabeça fria, com abertura para negociação e concessões, mas sem submissão. O país foi ameaçado por uma tarifa geral de 25%, mas Trump recuou e hoje ela incide só sobre os bens excluídos do Acordo Estados Unidos-México-Canadá. A China, fustigada por Trump, chegou a um princípio de acordo comercial com os EUA.
Lula usa politicamente a tensão com os EUA, estimulada pela família Bolsonaro, para tentar melhorar a popularidade e ver as chances de reeleição em 2026 crescerem. Trump tem sido péssimo cabo eleitoral. No Canadá e na Austrália, com reviravoltas surpreendentes, movimentos políticos alinhados com o presidente americano sofreram derrotas neste ano.
É natural que Lula tente tirar proveito da chantagem trumpista, agarrando-se à defesa da soberania e à união nacional para enfrentar a ameaça econômica. Precisa modular bem o discurso para evitar uma escalada que dificulte a retomada do diálogo. Na quinta e na sexta-feira, Lula e Trump admitiram que podem conversar. O bom senso manda não fechar a fresta que surgiu para o entendimento.



