
Fui ver A Odisseia, filme que certamente estará entre os favoritos do próximo Oscar tanto pela ousadia do diretor Christopher Nolan em adaptar para o cinema o poema clássico de Homero num longa de 2 horas e 52 minutos quanto pela verdadeira galáxia de astros e estrelas reunidos no elenco. Não sei se gostei. Fui, principalmente, por que adoro mitologia greco-romana desde que fui apresentado aos deuses, semideuses e heróis da Antiguidade pelo meu querido professor de História Harry Bellomo – que encantava seus alunos com descrições fantásticas daqueles tempos pretéritos.
Mas o filme, ao contrário das narrativas do meu velho mestre, é demasiadamente humano – como diria Nietzsche. Odisseu é um herói atormentado por múltiplas culpas. E os sentimentos próprios dos mortais predominam: ambição, ganância, crueldade, traição, medo e também fidelidade e coragem. A única deusa que me impressionou foi Circe, mais por seu sarcasmo do que pelo poder de transformar homens em porcos. Spoilerzinho: ao devolvê-los para a forma original, por ordem de Odisseu, ela sentencia: “Voltem para seus disfarces!”.
Magoei, mas tenho que reconhecer que foi uma boa sacada. Há, portanto, o que apreciar no filme, que vem recebendo críticas devastadoras de alguns entendidos, especialmente por distorcer ou omitir episódios que consideram fundamentais na história épica. Confesso que nem percebi essas falhas. O que realmente me incomodou foi o barulho. Tudo é estrondoso demais: os navios enfrentando ondas e tempestades, as guerras, as lutas contra monstros e mortos. É o filme mais barulhento que já assisti. Como sou sensível a decibéis exagerados e não levei cera para tapar os ouvidos, quase tive que me amarrar no mastro da poltrona para não sair correndo da sala antes do final.
Aliás, essa é para mim a verdadeira questão homérica do cinema moderno: por que o som precisa ser tão alto? Já li que o volume elevado nas músicas estimula áreas de prazer do cérebro humano, especialmente das novas gerações que já nascem com fones nos ouvidos. Mas nos filmes esses ruídos atordoantes bem que podiam ser melhor modulados. Barulhão o tempo todo desconcentra e prejudica a própria compreensão da história.




