
Porto Alegre está recuperando a sua joia arquitetônica mais formosa, pelo menos na opinião deste observador apaixonado pelo Centro Histórico de sua cidade natal. Na semana passada, saindo de um compromisso profissional que avançou noite adentro, caminhei pela galeria iluminada do Viaduto Otávio Rocha, recém entregue pela prefeitura aos permissionários que administrarão as lojas restauradas. Está lindo!
Limpo, com pintura nova, iluminação adequada (nem boate nem farmácia 24 horas) e vigilância constante da Guarda Municipal, proporciona ao frequentador a impressão de estar passeando numa daquelas cidades europeias que conjugam arte, história e civilidade. Histórias não faltam ao nosso querido Viaduto da Borges, como se tornou conhecido popularmente desde que a artéria que corta a área central evoluiu do provinciano Beco do Poço para a movimentada avenida de hoje. Já serviu até mesmo de abrigo antiaéreo durante a Segunda Guerra Mundial, felizmente sem nunca ter sido bombardeado. Mas também já passou por vários outros tipos de depredação e pelo abandono prolongado por parte do poder público.
Ponto turístico obrigatório, o primeiro viaduto da Capital é também uma referência na história pessoal de muita gente. Eu mesmo sou frequentador antigo do local, pois trabalhei durante vários anos nas proximidades. Já subi e desci tantas vezes aquelas escadarias que até desenvolvi panturrilhas de atleta. Mas certa vez, num início de noite, minhas pernas afrouxaram quando deparei com uma jovem que chorava encostada ao parapeito da parte mais alta, na Duque. Estanquei:
— Você está bem? Posso te ajudar? — perguntei, assustado.
Ela balbuciou que não precisava de nada. Insisti, claro:
— Quem sabe a gente sai daqui e caminha um pouco? Tu vais te sentir melhor.
Não quis. Fiquei mais de meia hora conversando fiado com a desconhecida, de olho nela, preocupado. Até que ela me fitou já sem lágrimas nos olhos e falou com firmeza:
— Pode ir. Obrigada. Estou bem. Sempre que me sinto triste, venho aqui para desabafar.
Passeando pelo mesmo local, na semana passada, me lembrei daquele insólito episódio e pensei: se estivesse assim, tão bonito e iluminado, talvez ela tivesse vindo aqui apenas para sorrir.






