
A burocracia brasileira é realmente kafkiana, com tudo o que o adjetivo inspirado no escritor Franz Kafka possa sugerir em termos de absurdidade. Veja-se esse caso da professora carioca que está há cinco anos tentando corrigir um registro de trabalho que lhe atribui o cargo de Presidente da República.
Isso mesmo, uma professora de inglês batendo de repartição em repartição para limpar seu nome de uma função ironicamente ambicionada por muitos patrícios e patrícias. Agora mesmo, neste ano eleitoral, temos mais de uma dezena de candidatos almejando o título rejeitado pela mestra.
O que aconteceu? Ninguém sabe ao certo, mas o mais provável é que tenha havido alguma digitação errada do número correspondente ao cargo presidencial no Código Brasileiro de Ocupações, sistema do Ministério do Trabalho e Emprego que padroniza o registro formal de trabalhadores no país. Segundo o que já foi apurado, não é o único caso de pessoa registrada com o código do primeiro mandatário da nação: dados atuais da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram a existência de pelo menos 19 vínculos empregatícios ativos nos cargos de presidente e vice-presidente da República.
Ter uma governante com bom domínio da língua inglesa até poderia ser produtivo para o Brasil numa época em que a soberania do país depende do humor ciclotímico do imperador Donald Trump. Mas a professora não quer ser presidente nem presidenta: quer apenas se livrar do equívoco para retomar sua vida normal e conseguir um registro compatível com sua verdadeira atividade profissional. Só que um burocrata empurra para outro e a agonia se perpetua. Com cinco anos no cargo indesejado, ela já pode se considerar no segundo mandato presidencial.
O Brasil, decididamente, não é para amadores – ou para principiantes, de acordo com a frase original de Tom Jobim. Nossa burocracia é indecifrável e imorrível, como diria aquele mandatário inelegível. Isso que, em passado não muito distante, o país já teve três ministros extraordinários para a Desburocratização.
Pelo jeito, só piorou.




