
Os álbuns de figurinhas desafiam o tempo e a lógica da era digital. Numa época em que tudo passa pelas telinhas e pelos algoritmos, essa atividade totalmente analógica não apenas resiste como também continua atraindo novos praticantes. É, no mínimo, intrigante observar crianças que nasceram com o celular nas mãos utilizando os dedos para rasgar pacotinhos, retirar avidamente os cromos, colá-los em espaços numerados num caderno de papel e – o mais curioso – participar das rodadas de trocas de figurinhas, interação socializante e prazerosa que envolve colecionadores de todas as idades.
Na verdade, colecionador de figurinha não tem idade. Outro dia flagrei um avô tentando ensinar ao neto o jogo do bafo, que era febre no século passado e ainda atrai as novas gerações. Para quem não lembra ou não conhece, consiste em bater com uma das mãos sobre figurinhas viradas para desvirá-las com o deslocamento do ar. Desvirou, ganhou – e vai mais uma para a coleção.
Avós e pais voltam à infância nos períodos de intenso colecionismo, como já ocorre agora na antevéspera de mais uma Copa do Mundo. Claro, cabe-lhes também patrocinar a gastança, que tende a ser grande neste Mundial de 48 seleções. Ao todo, segundo li, serão 980 figurinhas, sendo 912 em papel normal e mais 68 metalizadas. Pelo menos, segundo o fabricante que monopoliza o comércio dos álbuns futebolísticos, não há mais figurinhas difíceis – aquelas que eram distribuídas em menor quantidade para se tornarem raras e disputadas.
Lá por mil novecentos e antigamente existia a chamada figurinha carimbada, que vinha com um carimbo especial sobre a imagem para indicar seu valor raridade. Daí, inclusive, vem a respectiva expressão popular que – por uma dessas armadilhas da linguagem – adquiriu sentido oposto: agora define alguém que aparece com frequência em determinado ambiente. As figurinhas carimbadas da minha infância definiam craques merecedores do símbolo de exclusividade.
Eis aí uma boa questão para o leitor que chegou até aqui: se você tivesse que carimbar um único jogador entre todos que disputarão a próxima Copa, quem seria o contemplado?




