
Eu só ganho na Mega-Sena quando me esqueço de jogar e ninguém acerta as cobiçadas seis dezenas. Racionalizo, então: pelo menos, poupei o dinheiro que gastaria na aposta. Mas aí o próximo concurso se torna ainda mais atraente, como é o caso do sorteio desta terça-feira, que deve pagar um prêmio superior a R$ 130 milhões. Vamos lá, de novo. Com meu joguinho simples, a probabilidade de ganhar – segundo cálculos da própria Caixa – é de um em 50 milhões. Custa arriscar? Custa uns trocados, mas não jogando a probabilidade é zero.
A lógica do jogo é semelhante à lógica da superstição. Busca-se os números mágicos como quem veste a camisa surrada acreditando que ela fará seu time ganhar. Na maioria das vezes, não dá certo. Mas o apostador, como o supersticioso, prefere valorizar apenas as ocasiões em que o ritual parece ter funcionado, ignorando os fracassos.
O Brasil está transformado num grande cassino, embora os próprios continuem proibidos há quase oito décadas, por ato do então presidente Eurico Dutra. Diz-se que ele adotou essa medida influenciado pela esposa religiosa, conhecida como Dona Santinha. Hoje as religiões brasileiras, embora detenham expressiva representatividade no poder político, pregam suas restrições à jogatina no deserto da hipocrisia, pois o país está dominado por jogos oficiais, apostas esportivas e até – por incrível que pareça - pelo imortal jogo-do-bicho, que se mantém ativo e operante nas periferias das cidades.
Nesse contexto, o governo gaúcho resolveu ressuscitar a loteria estadual, ampliando sua abrangência e concedendo sua administração à iniciativa privada. A justificativa é a mesma de todos os defensores das apostas: geração de impostos, de empregos e de arrecadação para (pelo menos no discurso) aplicação em obras públicas. Como cidadão e apostador de loterias oficiais (nem sei como se joga nessas bets que proliferam por aí), me sinto moralmente impedido de ser contra. Mas também não posso ignorar o degradante efeito colateral desse vício disfarçado de diversão, que provoca dependência, endividamentos e famílias destruídas.
É um dilema nacional que precisa ser resolvido sem arbitrariedades, no jogo da democracia.

