
A verdade verdadeira, segundo as melhores fact-checking das histórias sagradas e profanas, é que eles nem eram reis. Eram apenas sábios — o que deveria ser mais do que qualquer realeza, mas aí o relato da misteriosa visita não seria suficientemente atraente para atravessar os séculos sem perder o interesse. Por serem sábios, respeitavam a ciência, conheciam astronomia e se guiavam pelas estrelas, que formavam o GPS da Antiguidade. Assim, driblaram a vigilância dos poderosos da época e conseguiram atravessar o deserto sem serem localizados por drones nem atingidos por um daqueles mísseis que afundam barquinhos no Caribe todos os dias.
Camelos estacionados à sombra, aproximaram-se em fila indiana (ou árabe, ou moura, sei lá!) da manjedoura para homenagear e presentear o recém-nascido. Foram recebidos por um misto de anjo e segurança, que foi logo perguntando:
— O que trazem para o Divino?
— Eu trago ouro! — apressou-se em dizer o mais experiente deles, um homem de 70 anos, barbas e cabelos brancos.
— Grande coisa! — ironizou baixinho o porta-voz, lembrando que o homenageado nascera com o dom de transmutar água em vinho e que seria muito fácil, para ele, transformar até lama no mais precioso dos metais. Mas aceitou o presente.
— O próximo! — ordenou.
Adiantou-se, então, um jovem de 20 anos e ofereceu incenso, que tinha o significado simbólico de adoração e reconhecimento à divindade, uma vez que, quando um ramo era queimado, a fumaça subia e levava ao céu as orações e as súplicas dos humanos.
— Não podemos fazer fumaça, pois seremos localizados — resmungou o guardião, mas acolheu a oferenda.
— E você? — perguntou ao terceiro visitante.
— Eu trago mirra, uma resina tão poderosa que pode curar ao mesmo tempo as feridas do corpo e as amarguras do espírito – explicou o mouro de 40 anos.
— Disso ele vai precisar! — reconheceu o guardião.
— Toda a humanidade vai precisar, embora a maioria, equivocadamente, prefira o primeiro presente! — concluiu o sábio, antevendo as guerras, o trânsito, as epidemias, as mudanças climáticas e a Mega-Sena da virada.
Estava escrito de outra forma, mas estava escrito.

