
Pelo jeito, os ratos do emblemático romance de Dyonélio Machado, publicado nos anos 1930, continuam habitando o Centro Histórico de Porto Alegre. Alguns integrantes da longeva família de roedores têm aparecido com frequência na Praça da Matriz, assustando frequentadores e revoltando moradores do entorno:
— Vi um do tamanho de uma capivara! — exagerou outro dia um comerciante das redondezas, acusando o bicho de afugentar clientes.
O que mais me chama a atenção é o local escolhido pelos animais para essas incursões que causam repulsa nos espíritos mais sensíveis. A Praça Marechal Deodoro, mais conhecida como Praça da Matriz, é o centro dos poderes do Estado. No lado Sul, estão a Catedral e o Palácio Piratini, sedes do poder religioso e do poder Executivo. A Oeste localiza-se a Assembleia, o poder Legislativo. No lado Norte, está o Palácio da Justiça – representação simbólica do poder Judiciário. Só instituições poderosas. Mas nenhuma delas parece ter autoridade suficiente para amedrontar os vizinhos indesejados.
A Prefeitura, que é a verdadeira responsável pelos logradouros públicos, diz que está fazendo a sua parte, inclusive com a aplicação criteriosa de raticida nos bueiros e em locais menos acessíveis para os pets que também passeiam por lá. Mas os ratos – aqueles mesmos que roeram a roupa do rei de Roma – resistem, resilientes.
O que os atrai lá? Certamente não é a proximidade com os poderes nem o dinheiro que Naziazeno Barbosa penou para conseguir a fim de pagar sua dívida com o leiteiro na ficção de Dyonélio. Eles lutam a mesma luta do atormentado funcionário público da história: a batalha da sobrevivência. Buscam restos de alimentos deixados nos canteiros, nas escadarias e nos bancos da praça tanto por frequentadores habituais quanto por pessoas em situação de vulnerabilidade social que recebem marmitas nas cercanias.
Os ratos são um problema menor nesse contexto. O verdadeiro desafio para todos os poderes – e para os cidadãos – é a desigualdade social, que não pode ser resolvida com projetos autoritários, mas sim com bons governos, representação política decente e justiça, sem dispensar a solidariedade apregoada pelas orações.






