
No dia em que minha mulher me pediu para comprar páprica defumada, passei por constrangimento no supermercado. Para não esquecer o que buscava, fui repetindo baixinho o nome da especiaria, concentradíssimo, até ser interpelado por um conhecido e responder ao seu cumprimento com uma estranha interjeição:
— Papr...Oi!
O homem sorriu amarelo, mas acho que se considerou cumprimentado. Retomei a lenga-lenga até achar a mercadoria.
Hoje ninguém mais estranha muito quando vê alguém falando sozinho em público, a não ser que o sujeito esteja gritando impropérios ou dizendo coisas desconexas. Depois do celular, dos fones de ouvido e da Alexa, o monólogo sem plateia visível passou a ser rotineiro. Mas isso é coisa relativamente recente. Antigamente, mas não muito, quem falava sozinho era considerado maluco.
Vários personagens da literatura foram assim rotulados, sendo o mais célebre deles, provavelmente, o cavaleiro delirante Dom Quixote de La Mancha. Na verdade, ele não falava sozinho: falava com os leitores. Foi pelas palavras do guerreiro tresloucado que Cervantes deixou mensagens como esta: “Quando o coração transborda, a língua fala”.
O pescador Santiago, de O Velho e o Mar, também falava com o peixe e consigo próprio, para melhor nos contar a fantástica história de Hemingway. Tom Hanks falava com a bola Wilson, no filme O Náufrago. O monólogo solitário é uma técnica literária conhecida como fluxo de consciência, também utilizada nas novelas de TV e no cinema para assegurar bom entendimento por parte dos espectadores.
Na vida real, porém, falar sozinho, com animais ou com objetos também pode ser um antídoto para a solidão. Mas, decididamente, não é maluquice. Pelo contrário, um estudo recente realizado na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, comprovou que o hábito de conversar com os próprios botões pode trazer múltiplos benefícios ao falante, entre os quais o de aumentar a concentração, preservar a memória e elevar a autoestima. Os cientistas concluíram que a fala é o músculo do cérebro, argumentando com o exemplo clássico: não há melhor maneira de lembrar um número de telefone ou uma lista de compras do que a repetição em voz alta.
— Páprica... páprica...páprica...




