
Minha mulher é uma cruzadista obstinada.
— O que é gefirofobia? — me pergunta, quando já estou piscando os olhos de sonolência na leitura do meu livro de cabeceira.
No momento, estou lendo Astronauta de Pandorga, do ex-colega de ofício Rivadavia de Souza (que não é meu parente), sugestão do também jornalista Elmar Bones numa conversa de corredor na última Feira do Livro. É justamente por saber que leio de tudo que ela gosta de me testar.
— Sei lá! Deve ser medo de girafa — chuto. E levo o cartão amarelo do riso debochado, seguido da devida explicação.
A gente sempre aprende alguma coisa com as palavras cruzadas. Gefirofobia, com suas variáveis gefidrofobia e gefisrofobia, é o medo irracional de atravessar pontes ou viadutos — do qual talvez eu próprio padeça em determinadas situações. Só discordo do qualificativo: meu medo de altura é totalmente racional. Sei, medo de altura tem outro nome, é acrofobia, mas os dois se misturam em caso de travessias muito elevadas. Cruzar a pé a Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, já me dá vertigem.
O que não é muito racional é a gente se meter numa dessas situações difíceis sem necessidade. Uma vez, na adolescência, inventei de subir na caixa d’água do Morro do Sabiá. Sei lá porque fiz aquilo. Quando cheguei no topo, a escadinha de acesso sumiu da minha vista. Devo ter ficado umas três horas olhando para o Guaíba até criar coragem de tatear o caminho de volta, com o coração aos pinotes e me arrastando feito lagartixa.
A propósito, só para espichar um pouco mais esta prosa terça-ferina, tem gente que tem medo de lagartixa. Então, aí vai mais uma contribuição de cultura inútil para o vocabulário dos medos: herpetofobia. É o medo extremo e irracional de répteis. E não vem do nosso convívio pré-histórico com dinossauros, pois a ciência garante que o homem e os monstrengos jamais se encontraram — a não ser nos filmes do Spielberg. Medo de monstros também tem denominação própria: terafobia.
Como dizia Machado de Assis, palavra (cruzada) puxa palavra, uma ideia traz outra e assim se faz um livro, um governo, uma revolução. Ou uma crônica.


