
Olho o mapa dos sebos de Porto Alegre como quem examinasse a anatomia de um livro, este objeto que contém o mundo, e até outros mundos, e principalmente as vidas que passaram, que aqui estão e também as que virão. É nem que fosse minha vida. Jamais passo na frente destas livrarias de relíquias sem parar, dar uma olhadinha nas vitrines, nas estantes, nas pilhas amontoadas pelos cantos. De vez em quando saio com um ou dois volumes, para acrescentar ao meu próprio sebo, que ocupa uma sala inteira da casa e todos os espaços da minha mesa de cabeceira.
Livros de papel tornaram-se um estorvo para muita gente nestes tempos digitais, mas as bibliotecas particulares resistem bravamente até o desaparecimento dos leitores que as formaram. Só, então, são transferidas para estas lojas que compram e vendem páginas amarelecidas. Sempre penso nisso quando leio um livro usado. Fico imaginando as pessoas que primeiro desvendaram o sentido de cada linha. Às vezes nem é preciso imaginar, pois muitos vêm com o nome do primeiro proprietário ou com alguma dedicatória mais perene do que o agraciado.
O crescente e inesgotável estoque dos sebos me faz lembrar uma anedota que o imortal Moacyr Scliar gostava de contar. Cada vez que o livreiro saía para almoçar, trancava sua loja com várias correntes e cadeados. Intrigado, um amigo perguntou:
— Você tem medo que levem esses livros velhos?
Ao que o homem respondeu:
— Não! Tenho medo que coloquem mais aqui.
Só no Centro Histórico de Porto Alegre, sobrevivem duas dezenas de lojas de livros antigos. No buscador Estante Virtual — o digital a serviço do impresso em papel — estão cadastrados mais de 70 sebos na capital gaúcha.
Sinto uma dor infinita — como a do parafraseado Mário Quintana, presente em todos eles — dos livros que não lerei.





