
A desastrada decisão recente dos Díaz em tirar Carbonero do time titular porque, supostamente, estaria se entregando menos nos treinamentos é parte de um processo hipertrofiado nos clubes de futebol de alto rendimento.
Quem desconsiderar as informações que a ciência é capaz de dar para a tomada de decisão sobre titular, reserva, função a desempenhar e minutagem em campo estará na contramão da evolução e será engolido pelos fatos. Assinamos este acordo agora em três vias.
Os equipamentos e os exames no cotidiano dos jogadores chegaram para ficar e cooperam para a excelência quando chega a hora de entrar em campo e competir. O que não pode é desprezar o fator humano no conjunto de ações a implementar no vestiário e no trabalho diário.
Tenho horror a algoritmo, fruto da minha consagrada incompetência com números, então desconte quem me lê esta ojeriza. Feito isso, entenda que minha defesa é por um equilíbrio entre tudo o que as novas práticas trazem para o futebol e a velha e boa sensibilidade do olho no olho, na atenção ao tom de voz do "bom dia" quando o jogador chega ao vestiário para treinar, a alteração de comportamento de quem está sempre falante e aparece quieto ou está sempre quieto e aparece falante.
Aqui, não é GPS, exame de CK nem, como diria meu amigo Pedro Ernesto, o raio que o parta. Nesta área, vale a sensibilidade do comandante para detectar o estado emocional de quem está sob seu comando, acolhê-lo ou repreendê-lo, se for o caso, mas de jeito algum punir o time como se isso resolvesse a indisciplina. Mesmo nos tempos perigosos da inteligência artificial, lidar com gente significa saber entender gente.
Ramón Díaz faz o diplomata; Emiliano, o guerrilheiro. Na figura do policial bom e do policial ruim no interrogatório do suspeito de crime, a ideia é que se completam.
A estrada do pai, a fome por sucesso do filho, um dá sabedoria, o outro, vitalidade. Bonito no texto aqui na coluna, mas inútil na vida real se as escolhas forem ruins e as trocas, piores.

Piora, aliás, quando o mais sanguíneo vai na coletiva pós-jogo dizer que se for preciso, sai no braço para o time melhorar. Fica bravateado, não animado.
O episódio com Carbonero, já que ninguém vê os treinos da semana, é emblemático. A informação vendida do Beira-Rio varia entre sua pouca entrega no trabalho até conflitos específicos com companheiros de elenco. No campo, porém, Carbonero vinha sendo o foco de qualidade ofensiva e indignação diante do resultado ruim.
Se não fosse o colombiano, o Inter não teria feito gol no empate com o Juventude em Caxias do Sul e teria perdido para o misto do Corinthians um mês atrás no Beira-Rio. Se não fosse Carbonero e Vitinho, não faria o segundo gol na vitória sobre o Botafogo.
Não fosse o atacante e o Inter não asseguraria com o segundo gol a vitória sobre o Sport Recife, jogada dele para gol de Bruno Henrique. Todos os jogos citados aqui têm gol ou assistência de Carbonero.
Nem estou trazendo os gols marcados nas derrotas, como o 1 a 4 para o Palmeiras. Trago só os pontos conquistados por Ramón Díaz de treinador e a participação de Carbonero nestes pontos. Aqui, não se trata de opinião. Só fato.
Também é fato inadmissível Carbonero não saber que estava pendurado e levar o terceiro amarelo por chutar uma bola para longe depois de uma falta não marcada. Descompromisso. Erro maior é seu, mas cadê um integrante da numerosa comissão técnica colorada para conferir, antes do jogo, se Carbonero estivesse ciente da situação que vivia?
Carbonero não virou Luis Díaz, o melhor jogador da seleção colombiana. Mas seu desempenho recente lhe rendeu a primeira convocação e fez gol. Na seleção do campeonato do mês passado, Carbonero constava no lado esquerdo de ataque.
Não se briga com o campo
Pouco tempo depois, os outros dez jogadores que estavam na lista continuam titulares em seus times. Carbonero, não. Haveria silêncio do colunista se a performance coletiva tivesse melhorado pela ausência do jogador. Não se briga com o campo.
No entanto, nos dois jogos em que começou no banco, Carbonero entrou no intervalo. O Inter perdeu 90 minutos com seu jogador mais vertical no banco e depois o colocou para resolver a dificuldade criada pela ausência dele decidida justamente pelo seu treinador. Aí, não dá.
O futebol é feito por humanos com humores, dores e oscilações emocionais. Quem desconhecer obviedade tão ululante precisa se dedicar ao videogame.
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