A estratégia do banqueiro Daniel Vorcaro para abrir caminho na cúpula dos poderes em Brasília foi pouco inovadora, mas muito efetiva. Com dinheiro farto, convite para festas de luxo e atenção especial a lideranças estratégicas, ele conseguiu manter vivo um emaranhado de negócios que culminou na maior fraude financeira do país.
A retirada do sigilo dos inquéritos, nesta sexta-feira (11), traz detalhes sobre os principais parceiros que Vorcaro conquistou pelo caminho. A Polícia Federal (PF) mostra indícios de corrupção envolvendo pelo menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
No caso de Toffoli, a apuração inicial mostra que ele pode ter sido o beneficiário de repasses de R$ 35 milhões realizados por fundos ligados ao Master. O ministro era frequentemente citado em convites para festas e outros encontros sociais bancados por Vorcaro.
Moraes, além do contrato de R$ 129 milhões do Master com o escritório de sua esposa, é citado também como convidado especial para confraternizações e um contato frequente em trocas suspeitas de mensagens com o banqueiro.
Em uma demonstração de completo desapego ideológico, Vorcaro mantinha relações com algozes do bolsonarismo ao mesmo tempo em que se desdobrava para estreitar laços com o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Peça-central de outra investigação em andamento, ele é suspeito de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no contexto da produção do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro. O senador intermediou, segundo a investigação, o recebimento de ao menos R$ 62 milhões de Vorcaro.
Sob justificativa de não atrapalhar o andamento da investigação, alguns detalhes sobre o Dark Horse ainda não foram divulgados. Mas a PF vê a necessidade de apurar se todo o recurso foi de fato para o filme ou se ajudou, por exemplo, a bancar a vida do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Os diálogos recuperados de Vorcaro também mostram frequente troca de mensagens entre ele e Flávio, além de encontros presenciais, inclusive após sua primeira temporada na prisão, no final do ano passado.
No esforço para ter influência em diferentes instâncias do poder, o banqueiro não atuava sozinho. As investigações mostram entre seus principais auxiliares dois ex-ministros do governo de Jair Bolsonaro e lideranças importantes do centrão: Fábio Faria, ex-titular do Ministério das Comunicações, e Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil.
Faria tinha um papel de concierge de luxo. Marcava com lideranças políticas e ministros do STF a participação em eventos sociais, como a festa em São Paulo revelada pela Revista Piauí com a presença de 120 modelos brasileiras e estrangeiras para 20 autoridades.
Nos diálogos entre Faria e Vorcaro, são citados entre os convidados outros nomes importantes do Congresso: o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o ex-presidente da Casa e recém nomeado ministro do Tribunal de Contas da União, Rodrigo Pacheco.
A retirada do sigilo de mais de 4,5 mil arquivos, nesta sexta-feira, ainda irá revelar muitos outros detalhes e conexões de Vorcaro, além dos benefícios que ele colheu ao montar esta rede ampla de intimidade e influência na República.



