
Escritor mais lido do Brasil na última década, o psiquiatra Augusto Cury (Avante) saiu das notas de rodapé da corrida presidencial e se tornou a primeira surpresa relevante desde o período de pré-campanha. A disparada coincide com o aumento de sua exposição na mídia, em debates e sabatinas. Mas até que ponto isso pode alterar o rumo da disputa?
Primeiro, será preciso saber se Cury consegue repetir o desempenho em pesquisas presenciais, feitas diretamente com os eleitores, e nos levantamentos internos dos partidos, que costumam ser mais precisos.
Nos levantamentos Nexus/BTG e AtlasIntel, nos quais aparece, respectivamente, com 11% e 7,8% das intenções de voto, a coleta é feita por telefone ou por recrutamento online.
Se confirmar esse desempenho, o escritor poderá se consolidar na terceira posição da disputa. Há, porém, uma barreira quase intransponível para que ele passe a ameaçar Flávio Bolsonaro (PL) ou Lula (PT).
A melhora de Cury nos levantamentos recentes parece resultar de uma migração pulverizada de votos. Ele retira um pequeno percentual das intenções de cada candidato, sem provocar, até aqui, uma desidratação relevante dos dois primeiros colocados.
Flávio e Lula também já demonstraram que, apesar de concentrarem as maiores taxas de rejeição, têm forte resiliência eleitoral. Suspeitas de corrupção e outras pautas negativas não produziram, nos últimos meses, impacto significativo sobre as intenções de voto de nenhum dos dois.
É justamente por isso que a principal contribuição de Cury, e de outros candidatos que tentam decolar, pode não estar na disputa pelo segundo turno, mas na redução da abstenção e dos votos brancos e nulos.
Uma terceira via que consiga se mostrar minimamente competitiva, ainda que tenha poucas chances de chegar ao segundo turno, pode estimular eleitores que rejeitam Lula e Flávio, mas que, até agora, não encontraram uma alternativa capaz de justificar o esforço de ir às urnas.
Se Cury conseguir transformar curiosidade em voto, talvez não tenha força para mudar os nomes do segundo turno, mas poderá mudar a forma como Lula e Flávio chegarão até ele. E, numa eleição apertada, isso já pode ser suficiente para alterar o resultado.




