
A imagem de Lula e Davi Alcolumbre juntos nesta segunda-feira (17), no extremo norte do país, tem um significado que vai muito além da agenda da Petrobras. No navio-sonda da estatal, na costa de Oiapoque, no Amapá, o presidente da República e o presidente do Senado fazem a primeira grande demonstração pública de que decidiram virar a página de uma relação marcada, nos últimos meses, por desconfianças, disputa de poder e cobrança recíproca nos bastidores.
Não é por acaso que o encontro acontece justamente no Amapá. Alcolumbre é senador pelo Estado e tem na exploração da Margem Equatorial uma das principais bandeiras políticas de seu mandato. Lula, por sua vez, chega ao local poucos dias depois de a Petrobras anunciar a identificação de hidrocarbonetos (indícios de petróleo) em águas profundas da Bacia da Foz do Amazonas. Ainda não se trata, tecnicamente, da confirmação de uma reserva comercial de petróleo: serão necessários novos estudos e perfurações para avaliar o potencial econômico da descoberta.
Mas, politicamente, a notícia já produz efeitos — ainda mais por ter sido revelada no início da campanha eleitoral. Para o Amapá, a possibilidade de transformar a Margem Equatorial em uma nova fronteira de exploração de petróleo representa a perspectiva de investimentos, empregos e receitas. Para Alcolumbre, é uma agenda com forte apelo regional que pode reforçar sua posição como principal articulador dos interesses do Estado em Brasília.
A viagem, portanto, oferece aos dois lados uma oportunidade rara: apresentar ao público uma convergência de interesses e uma notícia promissora que pode, caso as expectativas sejam confirmadas, ter efeitos parecidos com os do Pré-Sal, em termos de potencial econômico e estratégico.
Lula precisa de Alcolumbre porque tem enfrentado no terceiro mandato uma relação conturbada com o Congresso. Na reta eleitoral, quer mostrar capacidade de aprovar medidas propostas pelo Executivo. Do outro lado, o presidente do Senado tenta assegurar apoio antecipado a um novo mandato no comando da Casa.
Coincidência ou não, Lula e Alcolumbre retomaram o diálogo no final da última semana, pouco antes do anúncio da Petrobras. Eles estabeleceram uma espécie de calendário para pautas de interesse do governo, entre elas a PEC que acaba com a escala de trabalho 6x1, uma das bandeiras que Lula pretende levar para a campanha de reeleição. A proposta, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e extingue a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, já passou pela Câmara e chegou ao Senado no fim de maio.
Em um evidente sinal de descontentamento com o governo, Alcolumbre evitou nos últimos meses assumir compromissos sobre o prazo de tramitação da proposta, e antes já havia sido protagonista em uma das maiores derrotas políticas da carreira de Lula: a rejeição de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal.
Apesar de ter ficado extremamente irritado com as atitudes de Alcolumbre, Lula manteve cautela, evitou críticas públicas e esperou o momento da reaproximação. Agora, a ordem parece ser outra: menos cobrança pública, mais negociação reservada e uma tentativa de reconstruir uma relação baseada menos na confiança pessoal e mais na convergência de interesses.



