A possibilidade de o governo Donald Trump impor nova retaliação econômica ao Brasil é vista com preocupação no Planalto pelo impacto na relação comercial, mas também como oportunidade política de reforçar internamente o discurso de soberania e as críticas à família Bolsonaro.
A decisão do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, que propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros para lidar com práticas comerciais consideradas desleais, não tem relação direta com o rápido encontro que o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teve com Trump na última semana.
Mas aliados de Lula veem uma chance de relacionar os fatos, especialmente por causa da pressão que a família Bolsonaro exerceu no ano passado a favor de sanções da Casa Branca - o que desencadeou no tarifaço de 50%.
Contestações ao Pix
De olho na repercussão que o caso terá junto à população, o governo também quer reforçar a legitimidade do Pix e a defesa de uma ferramenta gratuita de transferências e pagamentos.
Os Estados Unidos acusam o Banco Central do Brasil de utilizar o Pix de forma "injusta e discriminatória" em relação a outros meios de pagamento, como empresas de cartões de crédito americanas.
No caso da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, o peso da influência de Flávio é uma incógnita, tendo em vista que o tema já vinha sendo analisado pela Casa Branca no contexto de retaliações ao Brasil.
Apesar de a medida ser criticada pelas principais autoridades que combatem facções no Brasil, o senador tenta utilizar a decisão de Trump como trunfo político, a partir da ideia de que isso significará mais rigor no combate ao crime.
Com receio de interferências no país, o governo Lula reagiu com indignação ao anúncio do governo americano e, em nota oficial, criticou nominalmente a atuação da família Bolsonaro. Agora, Lula espera utilizar as eventuais sanções econômicas para reforçar ideia de que o Brasil precisa olhar para sua soberania e não se dobrar cegamente às ordens de outro país.
Em discurso durante a entrega do Campus Catalão do Instituto Federal de Goiás, Lula deu o tom que será usado pelo governo e pela pré-campanha petista à Presidência:
— Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. E são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer, em alto e bom som. São traidores — declarou.
Lula disse também que Joaquim Silvério dos Reis, "que delatou Tiradentes, por menos do que isso, foi enforcado", mas na verdade isso não aconteceu. O militar português morreu aos 66 anos — Tiradentes, sim, foi executado na forca em 21 de abril de 1792.


