
A família Bolsonaro se empenhou pela classificação das principais facções criminosas do Brasil como grupos terroristas pelos Estados Unidos e promete com isso uma nova Era no combate ao crime organizado. Mas a verdade é que especialistas no assunto enxergam na medida o efeito contrário, e alertam para possível interferência da Casa Branca nas empresas e no sistema financeiro local.
Não são apenas teóricos e estudiosos da área de segurança pública que estão preocupados com os efeitos da ação do governo Donald Trump. Autoridades que há décadas estão na linha de frente do combate às facções alertam que os grupos não têm qualquer semelhança com organizações terroristas como Hamas, Al Qaeda e Estado Islâmico.
O combate ao PCC e ao Comando Vermelho é o combate a grupos mafiosos, que agem por dinheiro e domínio de território por interesse meramente financeiro.
Referência nacional no tema, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, é um dos principais responsáveis pela prisão de lideranças do PCC e pelo enfrentamento ao grupo. Além de considerar que a medida de Trump não ajudará no combate às facções, o promotor tem alertado para os possíveis efeitos econômicos no Brasil.
Antes do anúncio oficial da Casa Branca, Gakiya já antecipava que a medida pode gerar sanções não apenas contra indivíduos, mas também contra instituições financeiras ou empresas que, mesmo sem conhecimento, foram utilizadas por pessoas ligadas às facções.
O uso de fintechs, bets, redes de postos de combustíveis e outros negócios lícitos pelas facções já foi identificado por ações das próprias autoridades brasileiras, como a Operação Carbono Oculto. O temor entre especialistas da área é que a Casa Branca queira utilizar este pretexto para sancionar bancos, gestoras de recursos e empresas com operações conectadas ao sistema americano de forma abrangente e descabida - impactando o ambiente de negócios.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirmou que a medida tem implicações profundas na soberania e autonomia do Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação regional e internacional.
Em nota, a organização lamentou que o tema "tenha sido capturado pela disputa eleitoral e a medida norte americana incentivada como solução de um problema bem mais complexo, sem considerar os riscos de saídas unilaterais de outras nações para uma economia do porte da brasileira".
Por fim, os especialistas sublinham uma hipótese menos provável, mas que não pode ser descartada, sobre a intenção americana em utilizar força militar no Brasil — a exemplo do que já foi realizado na Venezuela e no México, por exemplo.
Na primeira aproximação com a Casa Branca, a família Bolsonaro, neste caso liderada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, conseguiu convencer Trump de que o Brasil precisava de sanções. O tarifaço de 50%, sem qualquer justificativa comercial, impactou diversos setores da economia e não trouxe nenhum benefício ao Brasil.
Agora, liderado pelo senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a empreitada já teve o sucesso de ganhar as manchetes dos jornais. Resta ver se o efeito será melhor que o da primeira "conquista".




