
Há pouco mais de um mês, a Câmara estava dividida sobre o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que proíbe a escala 6x1 e lideranças importantes da Casa, especialmente de partidos de direita, consideravam a mudança inviável.
Dezenas de seminários foram promovidos em Brasília pelo setor privado, com ampla participação de deputados que se revezavam nos microfones criticando a proposta, prevendo um enorme impacto negativo na economia e atribuindo o movimento a setores isolados da esquerda e do sindicalismo.
O cenário começou a mudar na metade de abril.
Ao verificar um movimento de bastidores para empurrar a discussão para o ano que vem, o governo Lula encaminhou um projeto em regime de urgência com o mesmo objetivo das propostas iniciais.
Proximidade da eleição
De olho no impacto eleitoral, colocou o tema na prateleira de cima das prioridades e convenceu o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de que ele também poderia se beneficiar nas urnas como um dos grandes responsáveis pela mudança. Lula também prometeu dar reconhecimento público ao empenho.
Com ampla influência nas bancadas de centro, Motta colocou debaixo do braço pesquisas que mostram apoio de 70% da população à mudança. A pouco mais de quatro meses das eleições, foi argumento suficiente para começar a construir um movimento favorável.
Medo do "carômetro"
Os ventos mudaram de vez no final do mês passado.
Ao instalar uma comissão especial para discutir a PEC, Motta escalou Léo Prates (Republicanos-BA), colega de partido e forte aliado, como relator. Trabalhou junto aos partidos para que os titulares fossem favoráveis ao texto. E, a partir daí, fez uma série de manobras regimentais para acelerar o debate.
Momentos antes da discussão em plenário, o debate e a votação na comissão especial já evidenciavam o movimento de "onda". Típica de outras discussões no Legislativo, essa ideia de mudança de lado para apoiar aquele que será vencedor é relativamente comum. Em reservado, deputados que eram frontalmente contrários à mudança admitiram à coluna que votariam a favor por receio do "carômetro" — campanhas em redes sociais com fotos dos deputados contrários ao texto.
A última tentativa de parlamentares que se opunham à mudança foi tentar ampliar o período de transição para as novas regras. Uma emenda com este objetivo apresentada pelo deputado Sérgio Turra (PP-RS) conquistou 176 assinaturas de parlamentares do PL (61), PP (32), União (23), Republicanos (17) e MDB (13). Poucos dias depois, todos os partidos orientaram favoravelmente à aprovação do texto.
Foco no Senado
Nesta semana, representantes do setor produtivo já começaram a concentrar esforços no Senado. Os empresários tentarão convencer os senadores a garantirem ao menos uma ampliação no prazo de transição.
Pelo texto aprovado na Câmara, as novas regras valeriam 60 dias após a promulgação do texto. No caso da redução de jornada, cairia em um primeiro momento de 44 horas para 42 horas, e depois de um ano para 40 horas.




