
Não foi por falta de aviso. O governo Lula sabia do risco de estimular o consumo em um cenário de juros em alta e educação financeira em baixa. Agora, o Banco Central comprova o que já era percebido na prática há bastante tempo. As famílias brasileiras estão comprometendo 29% da renda com dívidas, maior patamar em 20 anos.
Nesta semana, o presidente solicitou a ministros um plano de ação para barrar juros abusivos e oferecer condições mais vantajosas de renegociação. Os detalhes devem ser anunciados nos próximos dias. Parece um déjà vu. Afinal, uma das principais promessas de campanha de Lula em 2022 foi limpar o nome de inadimplentes.
O programa Desenrola Brasil, lançado em 2023, beneficiou mais de 15 milhões de pessoas, segundo o Planalto, renegociando cerca de R$ 53 bilhões em dívidas, com descontos médios superiores a 85%.
Se levar adiante um novo plano semelhante, o governo terá de corrigir erros que ele mesmo criou. Hoje, boa parte das dívidas vêm do empréstimo consignado para trabalhadores da iniciativa privada, que na prática está muito longe do plano inicial, de oferecer juros mais baixos para substituição de dívidas mais caras.
A colunista Giane Guerra tem sido incansável em mostrar casos em que instituições financeiras estão cobrando juros abusivos dos trabalhadores. A falta de um teto de juros, como ocorre no consignado de aposentados, foi um erro brutal do governo.
É verdade que boa parte do endividamento não pode ser colocada na conta do governo. Mas o efeito colateral de um cenário de alto comprometimento da renda das famílias afeta diretamente a imagem de quem está sentado na cadeira de presidente. Por isso, Lula tem razão em estar preocupado com o impacto eleitoral. Ele será inevitável.





