
O projeto que proíbe a escala semanal de seis dias de trabalho por um de folga passou a ganhar tração no Congresso Nacional. Ao encaminhar a proposta à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não se limitou a cumprir um rito regimental. O movimento foi interpretado nos bastidores como um sinal político claro de que o tema tende a figurar entre as prioridades da Casa, apesar da resistência expressiva que ainda enfrenta entre líderes partidários.
Enquanto a pauta era sustentada apenas pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e por um grupo restrito de aliados, o fim da escala 6x1 era tratado como uma proposta de baixíssima viabilidade. O cenário começou a se alterar quando o governo Lula identificou uma janela de oportunidade para incorporar o tema ao seu discurso político e transformá-lo em uma bandeira com potencial eleitoral.
Com forte apelo junto à opinião pública, o Planalto passou a estimular o debate de fora para dentro e convenceu Motta de que a proposta pode render dividendos políticos a parlamentares de diferentes campos ideológicos.
A estratégia repete, em parte, a lógica adotada na campanha pela ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil. Diante da resistência histórica do Congresso à taxação de dividendos e da alta renda, o governo apostou na mobilização da opinião pública ao construir a narrativa de tirar dos "super-ricos" para beneficiar os mais pobres. Mesmo parlamentares contrários ao mérito da proposta acabaram votando a favor, receosos do desgaste político que uma posição frontalmente contrária poderia gerar junto ao eleitorado.
As discussões sobre mudanças na jornada de trabalho permaneceram engavetadas por anos, travadas por articulações de bastidores e pela pressão de entidades empresariais. Por isso, o fim da escala 6x1 era considerado, até recentemente, um tema quase intransponível no Legislativo.
Agora, pressionados por suas bases eleitorais, deputados e senadores admitem que a pauta se tornou inevitável — e já articulam formas de modular o texto para reduzir seus efeitos sobre o setor produtivo.
Em ano eleitoral, o avanço da proposta impõe um desafio central ao governo e às lideranças do Congresso: construir uma solução de equilíbrio que não imponha efeitos colaterais relevantes sobre a economia, a competitividade das empresas e os níveis de produtividade.





