
Mais do que acrescentar um novo capítulo ao longo enredo de crimes financeiros do Banco Master, a liquidação do Banco Pleno (ex-Voiter), anunciada nesta quarta-feira (18), é um retrato fiel de como negócios frágeis podem ser artificialmente sustentados por redes de influência política — até o momento em que a realidade contábil se impõe ou que os órgãos de investigação conseguem furar a barreira de proteção institucional.
Controlador do banco, o economista Augusto Ferreira Lima, conhecido como Guga Lima, criou conexões que vão da esquerda à direita, unindo grupos adversários para fortalecer interesses mútuos. Ou seja, mais um caso em que alguém faz fortuna não apenas pelo mérito do produto ou da gestão, mas principalmente pela capacidade de transitar entre governos, partidos e gabinetes.
No contexto de possíveis irregularidades que agora devem ser apuradas, os primeiros movimentos empresariais de Guga Lima aparecem na Bahia, a partir da privatização da Empresa Baiana de Alimentos S.A. (Ebal). Fundada para garantir o acesso da população de baixa renda a produtos básicos, subsidiando itens da cesta básica, a estatal foi vendida ao empresário no governo de Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil.
O negócio prosperou principalmente pelo uso que o empresário fez do cartão consignado "Credcesta", voltado a servidores públicos estaduais. A partir disso, ele fortaleceu laços com o PT baiano, gestores e entidades sindicais ligadas ao funcionalismo, mas também fez questão de se aproximar de um dos principais adversários do grupo, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto e o presidente do PL no Estado, João Roma.
A maior expansão, contudo, se deu por sua capacidade de migrar entre polos ideológicos com absoluta fluidez e ingressar em Brasília. No início de 2024, Guga Lima se casou com Flávia Peres - ex-ministra do governo Jair Bolsonaro e ex-esposa do ex-governador do Distrito Federal José Arruda.
Com forte influência política entre partidos do centrão, a esposa contribuiu diretamente na lógica adotada pelo marido: o capital mais valioso não estava no balanço do banco, mas na agenda de contatos dos proprietários.
Lima se tornou sócio de Daniel Vorcaro, controlador do Master, e de outros investigados por fraude financeira. Em novembro do ano passado, o dono do Pleno também chegou a ser preso na Operação Compliance Zero, mas foi solto em seguida.
Ao determinar a liquidação extrajudicial, o Banco Central citou o "comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, com deterioração da situação de liquidez, bem como por infringência às normas que disciplinam a sua atividade". O mercado tem falado em fraude, créditos podres e maquiagem contábil. A política, por enquanto, fala pouco — mas aparece bastante nas entrelinhas.



