
O presidente Lula adotou cautela ao responder ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o convite para integrar o chamado Conselho da Paz proposto pelo americano. Em conversa telefônica realizada nesta segunda-feira (26), Lula deixou claro que o Brasil não aceitará participar de um órgão com poderes irrestritos ou sem delimitação clara de atuação, mas sinalizou disposição para cooperar de maneira pontual.
Na ligação, o presidente brasileiro indicou que não assinará um “cheque em branco” para uma iniciativa que possa extrapolar a gestão da crise na Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, evitou um enfrentamento direto e reiterou compromissos e propostas que dialogam com a agenda defendida por Trump, numa tentativa de equilibrar autonomia diplomática e pragmatismo político.
Nos últimos dias, Lula discutiu com diplomatas e auxiliares políticos uma estratégia para não cair no que avalia como uma armadilha do presidente americano. Uma recusa imediata ao convite poderia reabrir um ciclo de tensão bilateral semelhante ao do ano passado, quando Trump impôs tarifas de 50% sobre importações brasileiras e autorizou sanções contra autoridades do país.
Por outro lado, o Planalto também descartou a adesão automática à proposta, diante da falta de garantias sobre o escopo do conselho e da ausência de detalhes sobre seu funcionamento. Segundo interlocutores, Trump não deixou claro se o órgão se restringiria à questão de Gaza nem quais seriam seus limites institucionais.
Em nota oficial, o governo brasileiro informou que Lula defendeu na ligação com Trump que o conselho tenha atuação limitada à situação em Gaza e inclua representação da Palestina. Paralelamente, em gesto de aproximação com pautas caras ao presidente americano, o brasileiro reiterou a necessidade de uma reforma ampla da Organização das Nações Unidas (ONU), com ampliação do número de membros permanentes do Conselho de Segurança.
Atualmente, o Conselho de Segurança é composto por cinco membros permanentes com poder de veto – Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França. Lula defende a inclusão de países emergentes, argumento recorrente da diplomacia brasileira.
Em outra sinalização de alinhamento, Lula retomou proposta já apresentada à Casa Branca para ampliar a cooperação bilateral no combate ao crime organizado. Segundo o Planalto, há interesse em aprofundar a parceria na repressão à lavagem de dinheiro, ao tráfico de armas, no congelamento de ativos de organizações criminosas e no intercâmbio de informações sobre transações financeiras.
O comunicado do governo brasileiro informou ainda que os presidentes trocaram impressões sobre a situação na Venezuela. Lula, segundo a nota, “ressaltou a importância de preservar a paz e a estabilidade da região e de trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano”. Não ficou claro, porém, se o presidente brasileiro voltou a se opor à captura de Nicolás Maduro – como já fizera publicamente – ou se se ofereceu para atuar como mediador em um eventual diálogo regional.

