
A sindicância aberta pelo Banco Central (BC) é mais do que necessária diante de indícios graves de que servidores da autarquia possam ter facilitado a continuidade da fraude bilionária comandada pelo banqueiro Daniel Vorcaro à frente do Banco Master. Mas, ainda que se confirmem falhas administrativas ou até crimes deliberados, o episódio também reforça os ganhos institucionais proporcionados pela autonomia do BC.
Aprovada pelo Congresso e sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro em 2021, a lei que instituiu o regime de autonomia da autoridade monetária estabeleceu mandatos de quatro anos para o presidente e os diretores da instituição, em períodos não coincidentes com o do presidente da República.
Pelas regras atuais, as indicações para o comando do BC e para as oito diretorias ocorrem na metade do mandato presidencial. A lógica é tornar a composição da cúpula mais plural e, sobretudo, menos suscetível à influência direta de um único grupo político.
Não há dúvidas de que o teste enfrentado agora pelo Banco Central é o mais relevante desde a implementação desse novo modelo. O atual presidente da autarquia, Gabriel Galípolo, foi alvo de pressões para que a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB) fosse levada adiante. A independência assegurada pelo mandato fixo e por outras garantias previstas na lei, contudo, foi determinante para que a decisão final se pautasse por critérios técnicos, e não por conveniências políticas.
Diante da maior fraude financeira da história recente e da evidente participação de autoridades do alto escalão da República, o episódio ao menos evidencia que parte das instituições segue funcionando –ainda que o BC, por ora, continue devendo explicações ao país.



