
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou ajudar o ex-presidente Jair Bolsonaro com a pressão do tarifaço contra o Brasil, mas tem boa chance de colher o resultado contrário. A intromissão de Trump em temas da política local já era vista com desconfiança. Agora, a adoção de uma medida que pode ter efeitos diretos na economia alcança outro patamar, e fortalece entre lideranças da direita a dúvida sobre as verdadeiras intenções de Bolsonaro.
Os partidos de direita vivem um dilema para as eleições de 2026. Enquanto Bolsonaro insiste em colocar um integrante da sua família como candidato, a maioria das lideranças de centro defende um nome mais moderado e com responsabilidade institucional. Ou seja, alguém que não estimularia um boicote comercial ao seu próprio país.
Apesar de a decisão de Trump ter sido anunciada dias após o Brasil sediar a cúpula do Brics, o tom da carta endereçada a Lula deixa claro que as medidas não têm relação direta com os pleitos dos países emergentes e com o eventual fortalecimento do bloco. E ainda reforça o desprezo do presidente americano a 200 anos de diplomacia e relações comerciais, que até agora resistiam a eventuais diferenças ideológicas a cada troca de governo.
O Brasil tem plenas condições de resolver seus problemas políticos e institucionais sem a participação de Trump. Se há excessos do Supremo Tribunal Federal (STF), problemas na relação com o Congresso e com o Executivo, quem precisa decidir são as lideranças políticas e os eleitores do país.
A cautela de lideranças da direita, que até agora evitaram se expor sobre o caso, ainda torna imprevisíveis os efeitos da ação de Trump. Até o momento, no entanto, a iniciativa tem mais chances de atrapalhar Bolsonaro e fortalecer outros nomes da direita. O tarifaço também entrega, em um primeiro momento, fôlego político para Lula, que enfrenta sérias dificuldades de governabilidade e popularidade há bastante tempo.


