
O acordo do Banco de Brasília (BRB) com a gestora de investimentos Quadra Capital destinado a tentar salvar o banco do Distrito Federal (DF) envolve a carteira de R$ 15 bilhões que havia sido repassada à instituição pública pelo Master, em substituição à que era um amontoado de fundos falsificados. O detalhamento da carteira e declarações da atual governadora do DF, Celina Leão, expõem o estrago feito por Daniel Vorcaro também na saúde de empresas privadas.
Celina admitiu que, dos R$ 15 bilhões, o BRB vai receber de fato R$ 4 bilhões. Ajuda, é claro, mas a necessidade de capitalização do banco do DF é da cifra completa, não apenas pouco mais de um quarto do total. O restante, disse, tem "possibilidade de recuperação", o que não significa certeza.
— A gente acredita que há possibilidade de recuperação de grande parcela daquilo que estava como algo que havia sido perdido (...) para que a gente possa realmente tirar essa situação do banco.
Para entender a "situação", é preciso saber que, na carteira, existem ações de empresas como Ambipar e Oncoclínicas, que enfrentam sérias dificuldades financeiras decorrentes da entrada na mira do "ecossistema Vorcaro".
O caso da Ambipar é o mais conhecido. Está em investigação na Comissão de Valores Mobiliários (CVM, a "xerife" do mercado de capitais), a suspeita de que Vorcaro, o polêmico empresário Nelson Tanure e diretores da Ambipar, inclusive o CEO e principal acionista Tércio Borlenghi Jr., teriam inflado as ações da empresa de forma artificial em até 800% em 2024. Os envolvidos haveriam embolsado o ganho e deixado dívida de R$ 10,7 bilhões que acabou no pedido de recuperação judicial.
A preocupação com a mineira Oncoclínicas, com forte atuação no RS, cresceu nas últimas semanas. Com prejuízo de R$ 3,67 bilhões em 2025, tentou vender de ativos para empresas como Porto Seguro e Fleury – dona do Weinmann –, que recusaram a oferta. Vorcaro chegou a deter cerca de 15% da Oncoclínicas, que teve perdas de R$ 433 milhões só com CDBs do Master.
Ampibar e Oncoclínicas fazem parte do cenário de pesado endividamento corporativo do Brasil. Parte foi gerada pelo choque de juro entre o final de 2024 e o início de 2025, mas outra é reflexo de má gestão – na melhor das hipóteses – ou, simplesmente, da extensão de ações criminosas para dentro das empresas. Parece não haver tipo de atividade no Brasil que não tenha sido alcançada pelos tentáculos de Vorcaro, de integrantes da mais alta Corte do país a empresas que tinham sua reputação como grande ativo.
Atualização: o BRB aprovou um plano de capitalização de R$ 8,8 bilhões nesta quarta-feira (22). Com 53% do capital, o governo do DF terá de entrar ao menos com R$ 4 bilhões.



