
Há pouco mais de 10 anos, Beatriz Luz começou a atuar em economia circular no setor privado. Depois, decidiu estimular essas teses – propõem recuperar o valor de bens pós-consumo e estender a vida útil de produtos, em oposição à lógica de extrair, fabricar e descartar – de forma independente e criou o Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec) e o Hub de Economia Circular Brasil. Passou por Porto Alegre em março, quando concedeu esta entrevista.
Como se tornou voz ativa na economia circular?
Comecei minha trajetória com a economia circular na Braskem, com olhar para o plástico verde. Promovia o plástico verde brasileiro no mercado internacional. Percebi que a transição para economia circular na Europa tinha política pública robusta e um articulador independente que falava com todos os elos da cadeia. Porque a economia circular não se dá entre quatro paredes. É como se aplica a matéria-prima, qual a proposta de valor, se o consumidor a entende e como faz a embalagem voltar. É um ecossistema.
Quis ocupar esse espaço?
Exatamente. Em 2015, constituí a Exchange4Change Brasil para ser um articulador e trazer soluções globais adaptadas à realidade brasileira. O resíduo plástico pode virar tijolo para construção civil, a casca de laranja pode virar tecido para o setor da moda. Mas é preciso ter um ator capacitado e com habilidade para falar com a moda e com o agro. Em 2023, criamos um instituto para fortalecer esse ecossistema e mostrar a economia circular como fator de competitividade.
Adotar essas práticas pode ajudar a se beneficiar com o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE)?
Estamos dizendo que 2026 será um grande marco na transição para economia circular. A UE está desenhando uma lei que as indústrias terão de seguir. É o EU Circular Economy Act, com metas de rastreabilidade, responsabilidade do produtor, inserção de matéria-prima secundária. As empresas brasileiras que quiserem fazer negócios com a UE precisam cuidar dessas regras. O acordo Mercosul-UE vai abrir mercado. Muitas das soluções desenvolvidas no Brasil podem ajudar a UE no processo de descarbonização. A economia circular não soluciona problemas da economia linear ligados a resíduos e poluição. Queremos modificar esse sistema e evitar o problema, redesenhar produtos para terem vida mais longa.
Um exemplo bem claro para entender a relação da economia circular com mudança climática: 55% das emissões vem do uso de energia e 45%, dos produtos do dia a dia.
Quais os setores prioritários para adotar economia circular?
Um exemplo bem claro para entender a relação da economia circular com mudança climática: 55% das emissões vem do uso de energia e 45%, dos produtos do dia a dia. Então, temos de olhar para plástico, cimento, construção civil, alimentos. Grandes empresários entenderam o problema. O desafio não é mais o diagnóstico, é como fazer. Não temos de olhar mais só para o fim da cadeia, mas para agregação de valor ao longo da cadeia.
Qual é a lógica econômica desse tipo de medida?
A conta não pode ser feita em só uma empresa. Tem de ser feita de forma que amplie a fronteira de análise, para ganhar escala. O Ibec está constituindo um comitê de financiamento circular, com economistas para auxiliar nessa nova conta. Não é melhor investir em infraestrutura para melhorar drenagem, manutenção das barragens e evitar outro acidente do que gastar para recuperar Porto Alegre, por exemplo? Infelizmente, os acidentes ajudam a gente a fazer essa nova conta.
O que você já observou de boas práticas em economia circular?
Vou trazer um caso que une dois setores. Na Holanda, uma empresa fez tecido de casca de laranja. A tecnologia está disponível, mas é preciso criar todo o ecossistema para ter escala e fazer o produto. No Brasil, temos o sururu, prato típico de Maceió. Fica a concha, que as marisqueiras jogavam de volta na lagoa e estavam começando a contaminar. Conseguiram processar as conchas para fazer tijolos de revestimento na construção civil. Não é só uma empresa investindo em tecnologia por ter o problema do resíduo. É preciso ter também um mercado comprador.
O grande desafio é o tempo de investimento e de retorno. O empresário brasileiro quer muitas soluções no curto prazo.
Quais são os obstáculos para convencer as empresas de que é um bom negócio?
O grande desafio é o tempo de investimento e de retorno. O empresário brasileiro quer muitas soluções no curto prazo. Temos de aprender a trabalhar mais no médio e longo prazo, pensar na sobrevivência dos negócios, na sustentabilidade do território, das cidades. Precisamos de um modelo mais colaborativo, deixar de ser individualista. O empresário só fala com o ator do mesmo setor e olha para uma conta bilateral. O desafio é fazer um cálculo com três, quatro partes. E às vezes é difícil ter dados de todos os elos para fazer a conta completa.
Como discutir esse modelo de longo prazo em um mundo com mudança rápida de tecnologias e conflitos geopolíticos?
O que trago de evidência é que ninguém vai fechar a conta sozinho. Não adianta a mineradora querer fazer tijolo circular se vende minério. É preciso montar equipes multidisciplinares para pensar a solução de forma criativa. A provocação é ter mais abertura para trabalhar em grupos. E já existem evidências que, com um grupo dedicado, disposto a trocar informação e criar um ambiente de confiança, é possível avançar mais rápido.
Há casos em que práticas de economia circular aumentam os custos?
Trata-se de uma nova economia, então tem de trazer benefício econômico, mas a conta tem parâmetros diferentes. Olha um exemplo: o copo compostável para substituir o plástico O produtor vende o copo compostável como serviço. Não se paga por um copo individualizado, mas pelo seu uso e por seu destino final. A conta não compara copo com copo. É preciso reduzir os custos, mas às vezes o cálculo não vai ser só do preço, tem de expandir a fronteira de análise. Para definir se tem benefício econômico ou não, tem de incluir na conta da compra do copo plástico o quanto será gasto para jogar o copo fora, dar destinação e o risco de contaminação. Temos de falar com o negócio, não só com a área ambiental.
Temos de trabalhar com inspiração da liderança e obrigação legal em equilíbrio.
O que falta para o Brasil trocar economia linear pela circular?
Primeiro, legislação. A UE já notou que o modelo atual vai nos levar para o buraco, porque não tem mais recurso natural à vontade. Então, a UE começou a criar leis para mudar essa mentalidade de negócio. E também falta inspiração para fazer diferente. Temos de trabalhar com inspiração da liderança e obrigação legal em equilíbrio. Muitos estudos e pesquisas de economia circular são voltados para a área tecnológica. É design de produto, tecnologia para reciclar o plástico, mas o gargalo não está na tecnologia, está na estruturação da cadeia, no ecossistema, na mentalidade, nas competências.
*Colaborou João Pedro Cecchini


