
Não é "só" no preço dos combustíveis que a crise do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio está pesando. Uma reportagem do jornal The New York Times na Ásia relata que os problemas provocados por alta e falta da matéria-prima já são comparados aos que provocaram desorganização da cadeia produtiva durante a pandemia de covid-19. Nesta tensa terça-feira (21) em que há mais chances de retomada de ataques do que de extensão do cessar-fogo, o preço do petróleo chancela essa visão e sobe para perto de US$ 100. No final da tarde, com alta de 2,7%, vai para US$ 98.
A Ásia é o continente mais afetado pela crise porque é para lá que deveriam ir 80% do petróleo e 90% do gás que passavam pelo Estreito de Ormuz. O cenário inclui voos cancelados, alimentos mais caros, atrasos em entregas e prateleiras vazias de produtos tão diferentes quanto sacolas plásticas, seringas, batom, microchips e roupas. E o que mais inquieta quem não vive por lá: pausas em linhas de produção.
Durante a pandemia, o mundo descobriu que era dependente da Ásia. É de lá que veem desde produtos de consumo a insumos para indústrias. Depois da experiência traumática, falou-se muito no deslocamento da produção para dentro dos países (nearshoring) ou de nações amigas (friendshoring), mas pouco de fato aconteceu.
Agora, uma quantidade significativa das indústrias asiáticas que exportam para o mundo depende de muita energia e de insumos do Oriente Médio. Quase dois meses depois do início da guerra, seus estoques estão no limite. A falta de poliéster e náilon, que vêm do petróleo, tem interrompido a produção dos polos "têxteis" de Bangladesh, que produzem roupas para redes globais como Walmart, Zara e Uniqlo. E outros exemplos se multiplicam.
Por enquanto, isso ocorre muito longe do Brasil. Mas nem o tarifaço de Trump foi capaz de reduzir de forma drástica a interdependência da produção global. Sua guerra agora provoca perdas multibilionárias. Quem vai pará-la?





